quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo by Haruki Murakami

Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de FundoAuto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo by Haruki Murakami
My rating: 4 of 5 stars

Murakami aproveita a sua paixão pela corrida para nos falar francamente de si, sobre como decidiu ser romancista, sobre como, quando começou a escrever a sério, compreendeu que tinha de correr a sério, e de como escrever e correr estão tão interligados entre si que uma coisa não sobrevive sem a outra. Sim, porque escrever um romance é como enfrentar uma maratona: "a dor é inevitável, mas o sofrimento é uma opção".

O tom é muito coloquial, familiar, quase uma conversa longa num dia chuvoso, com um amigo, evitando portanto a pompa com que alguns autores exibem as suas memórias, ou a falsa modéstia de algumas autobiografias. E o entusiasmo pela corrida (por vezes parecendo mais forte do que o amor pela escrita) contagia-nos: "Enquanto corro, vou dizendo a mim mesmo para pensar num rio. Pensa nas nuvens, digo. Mas no fundo não estou a pensar em nada de concreto. Continuo, pura e simplesmente, a correr nesse confortável vazio que me é tão familiar, no interior do meu nostálgico silêncio. É isso que é qualquer coisa de profundamente maravilhoso. Digam o que disserem."

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domingo, 8 de outubro de 2017

Resident Alien: The New York Diaries by Quentin Crisp

Resident Alien: The New York DiariesResident Alien: The New York Diaries by Quentin Crisp
My rating: 4 of 5 stars

Quentin Crisp foi um indivíduo original e único e as suas memórias dos anos de Nova Iorque como "alien", nos dois sentidos, de estrangeiro e estranho (extraterrestre), são extraordinariamente perspicazes, inteligentes e por vezes controversas, tanto no que se refere aos comportamentos e hábitos dos seus compatriotas ingleses, que deixara para trás, como aos dos americanos que o acolheram, como aos seus próprios!

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sábado, 30 de setembro de 2017

Nos Passos de Santo António by Gonçalo Cadilhe

Nos Passos de Santo AntónioNos Passos de Santo António by Gonçalo Cadilhe
My rating: 3 of 5 stars

Gonçalo Cadilhe parte de Coimbra para visitar os lugares por onde Santo António passou: Sevilha, Marraquexe, Argélia e Tunísia, Sicília, Roma, Assis, Bolonha. Moncenisio, a Provence francesa e, finalmente, Pádua. Tendo o santo vivido no século XIII, existe pouca documentação sobre o percurso do franciscano, e as hagiografias, não tendo como propósito descrever a viagem, mas glorificar o homem, não são fontes fiáveis. Apesar de tudo, especulando um pouco aqui e ali, Cadilhe vai reconstituindo a rota quase sempre de forma credível, aproveitando para nos contar algumas das aventuras que viveu e das impressões com que ficou.


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domingo, 17 de setembro de 2017

Ressurreição by Mário de Sá-Carneiro

RessurreiçãoRessurreição by Mário de Sá-Carneiro
My rating: 4 of 5 stars

Inácio e Etiénne não conseguem sequer conceber, quanto mais dar um nome, à atração que sentem um pelo outro. Os dois artistas boémios conhecem-se em Paris e conhecem uma bailarina de cabaret, por quem ambos se apaixonam, ou talvez se apaixonem por ela por estarem apaixonados um pelo outro e por ser esse o único vocabulário do amor que têm para exprimir a sua paixão.

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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Crónicas de Uma Pequena Ilha by Bill Bryson

Crónicas de Uma Pequena IlhaCrónicas de Uma Pequena Ilha by Bill Bryson
My rating: 4 of 5 stars

Depois de ter vivido durante vinte anos em Inglaterra, Bill Bryson decide regressar com a família aos Estados Unidos, o seu país natal. Mas antes decide fazer uma viagem de sete semanas pela Grã-Bretanha, com o objetivo de visitar todo o país. A viagem é um pouco caótica: se há um comboio que está a partir para uma qualquer cidade, Bryson não resiste a subir, por vezes alterando os seus planos. Desta forma, percorre muitas cidades da Inglaterra, do País de Gales e da Escócia, terminando em John O'Groats, no extremo norte da grande ilha.

Pelo caminho, sucedem-se aventuras e encontros, por vezes divertidos, por vezes assustadores. Por todo o lado, a mesma chuva e frio e cinzento do janeiro britânico, fábricas encerradas, centros de cidades descaracterizados por horríveis edifícios envidraçados de escritórios, as mesmas cadeias de lojas globais. Mas também algumas surpresas, como a catedral de Durham, a transformação de Glasgow, as paisagens rurais bem preservadas de certas zonas. E sempre, o especial sentido de cortesia e humor peculiar dos britânicos.

No final, Bryson descobre (ou recorda-se de) que adora a Grã-Bretanha: "Que lugar assombroso era este - completamente louco, mas adorável até ao mais ínfimo pormenor. Afinal, que outro país se lembraria de arranjar topónimos como Tooting Bec e Farleigh Wallop ou ter um jogo como o críquete que, ao fim de três dias, parece que ainda não começou? Quem é que não acharia estranho, no mínimo, obrigar os seus juízes a usarem cabeleiras e o Lorde Chanceler a sentar-se em cima de uma coisa chamada Woolsack na Câmara dos Lordes, e orgulharem-se de um herói da Marinha cujo último desejo antes de morrer foi ser beijado por um tal Hardy? («Por favor, Hardy, beija-me na boca, profundamente.») Que outra nação no mundo nos poderia dar William Shakespeare, empadas de porco, Christopher Wren, Windsor Great park, a Universidade Aberta, o «Gardner's Question Time» e a bolacha digestiva de chocolate? Nenhuma, é claro. Como nos esquecemos tão facilmente de tudo isto. (...) Este é um país que combateu e ganhou uma guerra nobre, desmantelou um poderoso império de uma forma suave e esclarecida, criou um estado-providência com os olhos no futuro - e depois passou o resto do século a considerar-se um fracasso crónico. O facto é que continua a ser o melhor lugar do mundo para fazer muita coisa - para pôr uma carta no correio, para passear a pé, ver televisão, comprar um livro, beber um copo, visitar um museu, utilizar os serviços bancários, ficar perdido, procurar ajuda, ou ficar parado numa encosta a apreciar a vista. (...) Já o disse antes e repito-o: gosto muito deste país- É difícil dizer por palavras o quanto gosto dele."

Hesitei entre 3 e 4 estrelas: não temos a ideia de um percurso ao ler o livro, perdemo-nos na sucessão de dias e locais, e as descrições são por vezes muito repetitivas (cheguei à cidade, era noite, estava a chover, apanhei uma molha, fui a um pub beber uma cerveja, no centro os edifícios vitorianos foram demolidos para dar lugar a feios edifícios de escritórios, nas ruas comerciais as lojas estão fechadas ou foram substituídas por McDonalds e Marks & Spencer's... etc., etc.) Um editor forte teria, provavelmente, cortado 1/3 das páginas.

Mas Bryson fez-me sorrir muitas vezes e, por vezes, soltar mesmo uma gargalhada! (Em John O'Groats, no extremo norte da ilha, não há habitantes, apenas 2 ou 3 lojas de recordações e 1 ou 2 cafés. Em janeiro, está tudo fechado, exceto uma loja. "Entrei e fiquei admirado ao ver no seu interior três senhoras de meia-idade a trabalharem, o que era um exagero, pois eu devia ser o único turista existente a uma distância de 640 quilómetros. As senhoras tinham um ar muito alegre e saudável e receberam-me calorosamente, com aquele maravilhoso sotaque da região das Highlands - muito bem pronunciado e, todavia, tão suave. Desdobrei algumas camisolas para que elas tivessem algo para fazer depois de eu sair da loja..."). Por isso, merece bem as 4 estrelas!

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