quinta-feira, 18 de maio de 2017

The Road to Serfdom: Text and Documents by Friedrich A. Hayek

The Road to Serfdom: Text and DocumentsThe Road to Serfdom: Text and Documents by Friedrich A. Hayek
My rating: 4 of 5 stars

A história repete-se, avisa Hayek, neste livro que escreveu na parte final da II Grande Guerra Mundial. Os totalitarismos populistas da primeira metade do século XX resultaram de um descontentamento progressivo com a incapacidade que as democracias demonstraram para gerar os consensos necessários à satisfação das expectativas criadas aos cidadãos. Descontentes com o impasse, os povos europeus deixaram de acreditar nos políticos e na política e aceitaram as propostas irrealistas e xenófobas dos pequenos (depois, grandes!) ditadores que lhes prometiam resolver em três penadas todos os problemas das suas nações. Hitler culpou os judeus e Estaline os capitalistas. Trump culpa os mexicanos, Le Pen os emigrantes e Erdogan a Europa...

E porque falharam as democracias? Porque os partidos não se entendiam entre si? Porque a classe política era corrupta? ou medíocre? Nada disso, diz Hayek. As democracias falharam porque se viram obrigadas a tentar gerar consensos impossíveis.

No início do século XX, à medida que o coletivismo se estendeu a cada vez mais capítulos da vida em sociedade, mais difícil passou a ser obter consensos. Todos estamos de acordo sobre grandes objetivos comuns, como a manutenção da ordem pública e a redução da criminalidade. Mas as nossas opiniões divergem muito quando os temas em debate são mais específicos, como, por exemplo, a localização de um aterro sanitário (nunca perto da minha casa...), o casamento entre homossexuais, a Uber vs os taxistas, os direitos dos animais, etc., etc. Quando são chamados a legislar sobre questões cada vez mais minuciosas, como estas, os políticos não conseguem, obviamente, chegar a acordo, sendo obrigados a beneficiar certos grupos (frequentemente, a maioria ou os grupos de pressão mais organizados) em desfavor de outros, o que acaba por gerar descontentamento contra os políticos, contra a política e contra as instituições da democracia: "só se insultam uns aos outros", "querem é tacho", "não percebem nada", "são todos corruptos"...

O que diz Hayek é que estamos a tentar utilizar a "ferramenta" da democracia para finalidades para as quais ela não é adequada. E ao utilizá-la assim, desvalorizando-a, estamos a abrir espaço para o populismo e para a autocracia, e a pôr em causa um bem (ainda) mais precioso do que a democracia: a liberdade!

É este o "caminho para a servidão" que serve de título ao livro. Foi este o caminho que foi trilhado pela Alemanha, entre guerras mundiais, quando o coletivismo atingiu uma tal proporção que o país se transformou numa enorme burocracia hierárquica, quase militarizada, em que o Estado se confundia com a Nação e todos eram funcionários (a maioria dos alemães não reagiu ao genocídio e às outras atrocidades cometidas durante a II Guerra Mundial... estavam apenas a cumprir ordens!) Foi este o caminho que foi trilhado na União Soviética, apesar de, aí, o coletivismo não ter sido de pendor hierárquico, mas igualitário, embora com resultados igualmente desastrosos.

Para evitar que esta história infeliz se repita, diz Hayek, só temos um caminho a seguir, o caminho que arrancou a Europa ao feudalismo da Idade Média e às monarquias absolutistas que lhe sucederam e aos fundamentalismos religiosos: o caminho da liberdade individual.

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terça-feira, 18 de abril de 2017

Antologia Grega: A Musa dos Rapazes by Carlos A. Martins de Jesus

Antologia Grega: A Musa dos Rapazes (livro XII)Antologia Grega: A Musa dos Rapazes by Carlos A. Martins de Jesus
My rating: 3 of 5 stars

Esta é a primeira tradução direta para o português do Livro XII da Antologia Grega, uma recolha de epigramas de teor homoerótico. Na Grécia Antiga, amavam-se os efebos até lhes surgirem os primeiros pelos no corpo ou na cara. Nestes epigramas estão todas as mágoas e as alegrias do amor, o mesmo amor que nos atormenta e arrebata nos nossos dias, que não respeita idades, fronteiras nem géneros.

142. À maneira de Riano
Com a rede, debaixo de um plátano verde, Dexionico
    caçou um melro e prendeu-o pelas asas;
entre gemidos se lamentava essa ave sagrada.
    Fosse eu, Eros querido e Graças florescentes,
um tordo ou um melro, para nas mãos desse rapaz
    gritos e doce pranto poder soltar!

188. De Estratão
Se beijar-te é crime, e o tomas por ato insolente,
    impõe-me o castigo e beija-me também tu!

203. Do mesmo
Beijas-me se não quero, beijo-te eu se não queres tu.
    És fácil, se te fujo; mas difícil, se te procuro.

O livro em formato pdf é grátis e pode ser descarregado aqui: https://digitalis.uc.pt/en/livro/anto...

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quinta-feira, 30 de março de 2017

What I Saw at Shiloh by Ambrose Bierce

What I Saw at ShilohWhat I Saw at Shiloh by Ambrose Bierce
My rating: 4 of 5 stars

Ambrose Bierce era sargento quando as tropas da União, comandadas por Ulysses Grant, foram surpreendidas pelos Confederados em Shiloh, na margem errada do rio Tennessee. Bierce não descreve a batalha; descreve apenas o que viu! E o que viu (e ouviu) é, por vezes, aterrorizador, agoniante e emocionante, mas também excitante e até mesmo deslumbrante. E ele fá-lo com uma escrita que é económica, direta e honestamente crua. Como alguém disse, talvez este seja o maior libelo contra a guerra da literatura norte-americana!

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segunda-feira, 13 de março de 2017

Faggots by Larry Kramer

FaggotsFaggots by Larry Kramer
My rating: 4 of 5 stars

Na "capital homossexual do mundo" (Nova Iorque) dos loucos anos pré-SIDA, seja nos bairros gay de Greenwich, em Washington Sq ou Christopher Street, numa das saunas gay da cidade, na inauguração da super-discoteca gay mais incrível de sempre ou no paraíso homossexual à beira-mar que era Fire Island, ninguém se importa com nada que não seja o prazer físico e sensual, sexo desenfreado, em grupo, anónimo, leather, s-m, fisting, muito... mas Fred compreende que procura apenas amor!
Talvez o livro mais realista e profundamente conhecedor da cena gay novaiorquina dos anos 1970. E enredo é muito solto, os personagens multiplicam-se de tal forma que lhes perdemos o rasto, mas no final da leitura ficamos com a sensação de que estivemos a apreciar um quadro complexo, uma obra-prima de um mestre. Jerónimo Bosch, por exemplo.

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O Sino by Iris Murdoch

O SinoO Sino by Iris Murdoch
My rating: 4 of 5 stars

A chegada de Dora e Toby à grande casa senhorial de Imber, anexa ao convento de freiras com o mesmo nome, desequilibra a pequena comunidade católica laica que aí se reunira e faz emergir uma torrente de paixões que estavam, se não reprimidas, pelo menos ocultas sob um véu opaco de fé. Michael, o líder da comunidade, sente-se atraído por Toby, o que o obriga a rever e repensar a sua grande paixão por Nick, um ex-aluno seu que também está em Imber a acompanhar a irmã Caterine antes de esta professar os seus votos como freira. Toby, incerto acerca da sua sexualidade, não sabe como reagir aos avanços de Michael e deixa-se arrastar por Dora para uma brincadeira infantil e idiota que envolve o novo sino encomendado para a abadia.

Iris Murdoch escreve muito, muito, bem, os seus personagens têm camadas de complexidade que nos intrigam e os tornam credíveis, o enredo parece uma avalanche, começa muito de mansinho mas precipita-se continuamente, e cada vez com mais força, para o desfecho final. Excelente!

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