sexta-feira, 1 de junho de 2018

Granta 10: Travel Writing by Bill Buford

Granta 10: Travel WritingGranta 10: Travel Writing by Bill Buford
My rating: 4 of 5 stars

Depois da II Grande Guerra Mundial, quando todos pensavam definitivamente enterrada a era das grandes viagens e explorações pelo mundo, e com ela a literatura de viagens, a Granta e Bill Bufford, demonstraram que este género literário ainda não tinha morrido e tinha espaço para se reinventar. Já não se tratavam agora das grandes epopeias de aventura e descoberta, procurando civilizações perdidas (como em "A Estrada para Oxiana" de Robert Byron ou "Um Gentleman na Ásia" de Somerset Maugham) ou tentando alcançar zonas remotas e inóspitas, (como em "Farthest North" de Fridjtof Nansen, ou "The Worst Journey in the World" de Ashley Cherry-Garrard). As experiências dos novos escritores de viagens passaram a ser agora mais pessoais e limitadas. Afinal, o mundo já estava completamente descoberto! Para além de serem contadas na primeira pessoa, estas novas histórias de viagens partilham com os clássicos de outrora o poder de nos empolgar, de nos deixar cheios de vontade de deixar os sofás das nossas vidas monótona para partirmos à descoberta de novas maravilhas. Em vez de nos levarem a descobrir o Polo Sul ou a Transoxiana, estes novos escritores de viagens (Chatwin, Morris, O'Hanlon, Theroux, Thubron, Lewis...) colocam-nos em cenários modernos, por vezes dramáticos, como guerras e golpes de estado, mas outras vezes quase irrelevantes, como a rivalidade entre duas pequenas aldeias italianas, a estrada US281 que atravessa o Texas de norte a sul ou um campo de treinos militar. São por vezes histórias de descoberta do outro, mas muitas vezes também histórias de descoberta pessoal.

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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Descobri que era Europeia by Natália Correia

Descobri que era Europeia: Impressões de uma Viagem à AméricaDescobri que era Europeia: Impressões de uma Viagem à América by Natália Correia
My rating: 3 of 5 stars

Sem o imaginar, nestas suas memórias de uma viagem aos Estados Unidos da América, Natália Correia faz um retrato do país atrasado que Portugal era em 1950, onde mesmo uma intelectual rebelde, como a poetisa o era, defende ideias excessivamente conservadoras para os padrões dos nossos dias. Um livro muito interessante e revelador.

Nota: a qualidade desta edição é muito má, com inúmeras e irritantes gralhas ortográficas (mais do que uma por página...). A evitar!

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domingo, 6 de maio de 2018

O Rio da Consciência by Oliver Sacks

O Rio da ConsciênciaO Rio da Consciência by Oliver Sacks
My rating: 4 of 5 stars

Um conjunto de ensaios muitíssimo interessantes, esclarecedores e, por vezes, surpreendentes, sobre a perceção, a consciência, o tempo e a memória , que nos obrigam a repensar muitas das certezas que temos.
Destaco:
"Velocidade": sobre a perceção que temos da velocidade e da escala temporal, onde Sacks inclui o exemplo de pacientes neurológicos para os quais o tempo passa em câmara lenta, como no filme "Matrix", quando o herói se desvia das balas, ou o exemplo das pessoas sujeitas a perigo de morte que recordam em poucos segundos toda a sua vida.
"A Falibilidade da Memória", em que o autor nos conta, por exemplo, como se lembrava nitidamente de uma bomba que caíra no jardim das traseiras da casa dos seus pais, em Londres, durante a II Guerra Mundial, e do pânico que se seguira, para descobrir pelo irmão, muitos anos mais tarde, que não estava em Londres nessa altura.
"O Eu Criativo", sobre o plágio nas artes.
"Escotoma: Esquecimento e Incúria na Ciência" sobre como certas descobertas científicas são esquecidas e voltam a ser redescobertas anos mais tardes, quase como se o fossem pela primeira vez.

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domingo, 8 de abril de 2018

O Céu Que nos Protege by Paul Bowles

O Céu Que nos ProtegeO Céu Que nos Protege by Paul Bowles
My rating: 5 of 5 stars

Quando começa a sua viagem em direção ao interior do deserto do Saara, Kit tem um presságio, uma premonição que não consegue compreender, mas que a atormenta por acreditar que algo de muito mau está para acontecer. E o seu presságio concretizar-se-á implacavelmente, como um rio que corre para o mar ou uma vida que se extingue inexoravelmente com a morte. Esta viagem que o casal Kit e Port empreende em direção ao desconhecido é a viagem que todos fazemos em direção ao futuro e à morte. Quando Kit se depara com o inevitável, recusa-se a aceitar, não quer pronunciar as palavras dolorosas, não quer sequer pensá-las. Kit sabia o que estava para acontecer, embora não tivesse consciência de o saber. Então, abandona-se às emoções mais básicas, deixa-se levar sem pelo deserto, deixa-se transformar no objeto de prazer de Belqassim. Quando até mesmo isso perde, Kit foge da prisão que aceitara voluntariamente e desaparece envolta em mistério.

O livro termina, mas nós ficamos a sentir que mesmo que tivesse escrito mais páginas, Paul Bowles não nos deixaria saber mais nada sobre Kit, que Kit ficaria para sempre esquecida, por toda a eternidade, e esse é o destino que todos pressentimos, sem o aceitarmos, que será o nosso. Paul Bowles é magistral em "O Céu que nos Protege" e criou personagens que, ao contrário do que acontece no livro, dificilmente serão esquecidos.

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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Grande Bazar Ferroviário by Paul Theroux

O Grande Bazar FerroviárioO Grande Bazar Ferroviário by Paul Theroux
My rating: 4 of 5 stars

O relato de Paul Theroux de uma grande viagem de comboio que fez em 1973, com partida e chegada a Londres ("todas as viagens são circulares"). Atravessado o Canal de ferry (ainda não havia túnel), segue pelo Expresso do Oriente e depois atravessa a Turquia e o Irão. Segue-se o Paquistão (não há comboios no Afeganistão) e vários percursos na Índia, com um saltinho ao Ceilão. Sem ligação da Índia para o Sudeste Asiático e, no Sudeste Asiático, sem ligações entre países, Theroux faz vários percursos dentro de cada país, incluindo no seu roteiro a Birmânia, a Tailândia, Singapura e o Vietname em guerra. A China estava ainda interdita, pelo que o autor voa até ao Japão, onde circula de Norte a Sul em comboios que quase parecem os aviões que ele detesta, e daí para a Rússia, numa travessia agitada de barco, de onde regressou à Europa no Transsiberiano.

Muitos meses sobre carris de caminho-de-ferro cansam mesmo os grandes viajantes de comboio, como Theroux, que não consegue esconder que a travessia da Rússia no Transsiberiano, que nos parece uma aventura de primeiro calibre, já lhe foi penosa. Quanto ao percurso de Moscovo a Londres, ocupa talvez menos de uma página.

Curiosamente, o autor não perde tempo a falar dos locais por onde passa, está mais interessado em descrever a própria viagem: os comboios, a paisagem que corre do lado de fora das janelas e, sobretudo, as pessoas que vai encontrando no comboio. O livro está recheado de pequenos episódios, alguns muito divertidos, outros muito interessantes, passados com as pessoas que lhe entram pelo compartimento adentro ou que se sentam à sua mesa no vagão-restaurante. E é com este mosaico de histórias que Theroux consegue ir fazendo um retrato dos povos e, de alguma forma, da própria humanidade.

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