quinta-feira, 12 de julho de 2018

Um Jeep em Segunda Mão by Fernando Dacosta

Um Jeep em Segunda Mão; A SúplicaUm Jeep em Segunda Mão; A Súplica by Fernando Dacosta
My rating: 4 of 5 stars

Uma edição que junta três guiões cinematográficos de Fernando Dacosta: "Um Jeep em Segunda Mão", "A Súplica" e "Um Suicídio sem Importância".

Das três, a peça de maior fôlego é a que dá o título à coletânea. Quatro ex-soldados da guerra colonial juntam-se numa lugarejo deserto (presumivelmente no Alentejo) e relembram as suas experiências de África, que os uniram numa forte amizade, tanto mais valorizada quanto mais as suas vidas pessoais na atualidade são praticamente um desastre. Com o decurso da noite, e o aumento do nível de álcool e de "erva" no corpo, a verdade mistura-se com as memórias, e os quatro são transportados ao passado, num sonho de emoções e ação que terá consequências desastrosas.
A transição do momento presente para o sonho, para o reviver do passado, é tratado magistralmente pelo autor, e só por isso já mereceria a leitura da peça. Mas também a construção dos personagens merece elogios. São todos personagens muito credíveis (um mais rico não exibicionista, um homem sisudo e marcado pela vida, um homossexual que faz travesti para ganhar a vida, um otimista e falador, apesar de ter perdido uma perna na guerra), tal como é credível a relação forte entre os quatro personagens, sem resquícios de classismo entre ricos e pobres, ou de moralismo contra o homossexual. Trata-se de uma relação que foi solidificada na guerra, ou que só uma guerra, ou uma provação comum muito forte conseguiria forjar. Muito bem, portanto, este "Jipe em Segunda Mão".

Já as outras duas são peças de menor dimensão, sendo a primeira, "A Súplica", um monólogo em que uma mulher suplica à sogra e ao filho que perdoem o marido, que se assumiu como realmente era, depois de lhes ter escondido algo (presumivelmente a sua homossexualidade) durante toda a vida. O importante é amar, diz a mulher, não importa a quem. Finalmente, a terceira peça, "Um Suicídio sem Importância", é um texto curto sobre o controlo dos media pelo poder político.


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terça-feira, 10 de julho de 2018

Orfeu da Conceição by Vinicius de Moraes

Orfeu da ConceiçãoOrfeu da Conceição by Vinicius de Moraes
My rating: 3 of 5 stars

O mito de Orfeu e Euridice transportado por Vinicius de Moraes para um morro de favelas do Rio de Janeiro, apenas com personagens negros. Como não podia deixar de ser, os diálogos são poéticos e musicais. As notas de cena são muito extensas, com música para violão e samba, ruídos de rua e da natureza, amanhecer coloridos e noites escuras... Foi levado à cena uma vez, em 1956, a custas do autor, com cenários de Oscar Niemeyer e música de António Carlos Jobim. Deve ter sido um espetáculo extraordinário! Será que fizerem alguma gravação?

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O Vice-Rei de Ajudá by Bruce Chatwin

O Vice-Rei de AjudáO Vice-Rei de Ajudá by Bruce Chatwin
My rating: 4 of 5 stars

A biografia romanceada de Francisco Félix de Souza (no livro Francisco Manoel da Silva) um influente escrivão da Feitoria de Ajudá que deixou uma prole imensa.

A prosa de Chatwin é lisa e concentrada e deixa-nos um sabor a pouco. Gostaríamos de poder saber mais e em mais detalhe sobre a vida daquela gente e sobre a sua época.

Apesar de conseguir distanciar-se sobriamente, relatando factos e evitando ser moralista ou faccioso, ao lermos "O Vice-Rei de Ajudá" não podemos deixar de pensar que nós, portugueses, continuamos a varrer para debaixo do tapete essa passagem importante da história de Portugal, que tanto nos envergonha, a do tráfego de escravos. Escandalizamo-nos com o holocausto nazi, com as limpezas étnicas em alguns países africanos, com o radicalismo religioso islâmico, com o apartheid na África do Sul, mas nunca, como diz Miguel Vale de Almeida, fomos capazes de fazer um esforço de Verdade e Reconciliação, nem, como diz também Vale de Almeida, de reconhecer que, apesar de afirmarmos e (pior!) pensarmos o contrário, somos uma sociedade profundamente racista.

Nota: vale a pena ouvir a entrevista de Miguel Vale de Almeida: "Ninguém imagina (de verdade) um português negro"

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No Coração de Bornéu by Redmond O'Hanlon

No Coração de BornéuNo Coração de Bornéu by Redmond O'Hanlon
My rating: 4 of 5 stars

Uma equipa de exploradores inesperada, constituída por um poeta laureado (James Fenton) e um especialista em literatura inglesa do século XIX (Redmond O'Hanlon, o autor), partem para os confins da selva inexplorada à procura do elusivo rinoceronte do Bornéu. Vão numa canoa, guiada por três homens das tribos iban, através de rápidos cada vez mais difíceis de ultrapassar. Mas são dois "sportmen" ingleses, que encaram fleumaticamente todas as contrariedades com bom-humor e sem lamentações. Apesar dos desafios que têm pela frente, serpentes venenosas, picadas dolorosas de formigas, possibilidade de inundações rápidas ou mesmo de se depararem com alguma tribo perdida dos temíveis canibais que habitavam a zona, James segue tranquilamente na canoa lendo poesia clássica e Redmond tem sempre capacidade de se rir das encrencas em que se vê metido.

Mas o seu deslumbramento pelas maravilhas que encontram na floresta virgem é contagioso, as nuvens de borboletas que os cobrem em busca de se alimentarem delicadamente da sua transpiração, o voo dos casais de calaus por entre as copas das árvores, os ruídos e as cores do despertar da vida a cada manhã. É com o coração apertado que lemos a descrição do último olhar apressado do autor ao reduto mais longinguo e virgem onde chegou e de onde tem de fugir apressadamente devido à subida rápida das águas do rio. É como a lágrima que o rei mouro deixou escorrer pela face quando, do alto da estrada que o levará a África, olha pela última vez para a sua amada Alhambra, que deixa para trás, depois de derrotado pelos reis católicos.

E esse mundo selvagem e belo que O'Hanlon visitou em 1983 já desapareceu. Nas fotos de satélite das aplicações de mapas da Google e da Microsoft vêm-se hoje estradas que penetram até às zonas mais isoladas e zonas de exploração madeireira e clareiras de árvores cortadas na floresta e barragens. Os delicados ecossistemas que tanto maravilharam o autor e nos maravilharam a nós desapareceram, talvez para sempre.

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quarta-feira, 27 de junho de 2018

The New Granta Book of Travel by Liz Jobey

The New Granta Book of TravelThe New Granta Book of Travel by Liz Jobey
My rating: 5 of 5 stars

Uma antologia de pequenas histórias de viagens, com uma grande diversidade de temas e estilos de escrita, que é o que uma antologia deve ser e que é parte do enorme interesse que este livro teve para mim. A outra parte, a maior, são os temas, por vezes surpreendentes mas quase sempre interessantes, que os autores abordam.
Já não são apenas relatos da exploração de partes remotas do mundo ou das primeiras grandes viagens de turismo de abastados europeus e americanos fazendo o seu "grand tour" das civilizações clássicas. Agora, os autores levam-nos a "viajar" a pequenos recantos irrelevantes, a "presenciar" acontecimentos marcantes, a "visitar" lugares na história ou mesmo nas mentalidades, até às ruas da prostituição barata da Tailândia (Lovely Girls, Very Cheap, de Decca Aitkenhead), a uma pequena cidade dos EUA, como tantas outras, que apenas se distingue por estar exatamente no centro do país (This is Centerville, de James Buchan), pelo vale do Mississipi abaixo durante uma das suas poderosas enchentes (Mississipi Water, Jonathan Raban), pela Sibéria pós-comunista (Siberia, de Colin Thubron), ao que significa ser homossexual numa tribo de índios do Amazonas (The Life and Death of a Homosexual, de Pierre Clastres), ao seio de um grupo de "terroristas" iraquianos (Osama's War, de Wendell Steavenson), atraídos a uma "tourist-trap" nas florestas do Congo (The Congo Dinosaur, Redmond O'Hanlon), a devolver um biscoito roubado da cabana do explorador Robert Scott, na ilha de Ross, Antárctida (Captain Scott's Biscuit, de Thomas Keneally) ou simplesmente numa saída noturna mágica, e um pouco louca, a uma montanha gelada do noroeste da Inglaterra durante um temporal de neve violento (Nightwalking, por Robert Macfarlane).
Concedo que muitas vezes estas histórias parecem-se mais com artigos de jornalismo do que com literatura de viagens, mas não me importo: fazem-me sonhar e ansiar por sair do conforto do sofá onde leio este livro, para descobrir mundos desconhecidos e empolgantes.

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