segunda-feira, 14 de maio de 2018

Descobri que era Europeia by Natália Correia

Descobri que era Europeia: Impressões de uma Viagem à AméricaDescobri que era Europeia: Impressões de uma Viagem à América by Natália Correia
My rating: 3 of 5 stars

Sem o imaginar, nestas suas memórias de uma viagem aos Estados Unidos da América, Natália Correia faz um retrato do país atrasado que Portugal era em 1950, onde mesmo uma intelectual rebelde, como a poetisa o era, defende ideias excessivamente conservadoras para os padrões dos nossos dias. Um livro muito interessante e revelador.

Nota: a qualidade desta edição é muito má, com inúmeras e irritantes gralhas ortográficas (mais do que uma por página...). A evitar!

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domingo, 6 de maio de 2018

O Rio da Consciência by Oliver Sacks

O Rio da ConsciênciaO Rio da Consciência by Oliver Sacks
My rating: 4 of 5 stars

Um conjunto de ensaios muitíssimo interessantes, esclarecedores e, por vezes, surpreendentes, sobre a perceção, a consciência, o tempo e a memória , que nos obrigam a repensar muitas das certezas que temos.
Destaco:
"Velocidade": sobre a perceção que temos da velocidade e da escala temporal, onde Sacks inclui o exemplo de pacientes neurológicos para os quais o tempo passa em câmara lenta, como no filme "Matrix", quando o herói se desvia das balas, ou o exemplo das pessoas sujeitas a perigo de morte que recordam em poucos segundos toda a sua vida.
"A Falibilidade da Memória", em que o autor nos conta, por exemplo, como se lembrava nitidamente de uma bomba que caíra no jardim das traseiras da casa dos seus pais, em Londres, durante a II Guerra Mundial, e do pânico que se seguira, para descobrir pelo irmão, muitos anos mais tarde, que não estava em Londres nessa altura.
"O Eu Criativo", sobre o plágio nas artes.
"Escotoma: Esquecimento e Incúria na Ciência" sobre como certas descobertas científicas são esquecidas e voltam a ser redescobertas anos mais tardes, quase como se o fossem pela primeira vez.

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domingo, 8 de abril de 2018

O Céu Que nos Protege by Paul Bowles

O Céu Que nos ProtegeO Céu Que nos Protege by Paul Bowles
My rating: 5 of 5 stars

Quando começa a sua viagem em direção ao interior do deserto do Saara, Kit tem um presságio, uma premonição que não consegue compreender, mas que a atormenta por acreditar que algo de muito mau está para acontecer. E o seu presságio concretizar-se-á implacavelmente, como um rio que corre para o mar ou uma vida que se extingue inexoravelmente com a morte. Esta viagem que o casal Kit e Port empreende em direção ao desconhecido é a viagem que todos fazemos em direção ao futuro e à morte. Quando Kit se depara com o inevitável, recusa-se a aceitar, não quer pronunciar as palavras dolorosas, não quer sequer pensá-las. Kit sabia o que estava para acontecer, embora não tivesse consciência de o saber. Então, abandona-se às emoções mais básicas, deixa-se levar sem pelo deserto, deixa-se transformar no objeto de prazer de Belqassim. Quando até mesmo isso perde, Kit foge da prisão que aceitara voluntariamente e desaparece envolta em mistério.

O livro termina, mas nós ficamos a sentir que mesmo que tivesse escrito mais páginas, Paul Bowles não nos deixaria saber mais nada sobre Kit, que Kit ficaria para sempre esquecida, por toda a eternidade, e esse é o destino que todos pressentimos, sem o aceitarmos, que será o nosso. Paul Bowles é magistral em "O Céu que nos Protege" e criou personagens que, ao contrário do que acontece no livro, dificilmente serão esquecidos.

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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Grande Bazar Ferroviário by Paul Theroux

O Grande Bazar FerroviárioO Grande Bazar Ferroviário by Paul Theroux
My rating: 4 of 5 stars

O relato de Paul Theroux de uma grande viagem de comboio que fez em 1973, com partida e chegada a Londres ("todas as viagens são circulares"). Atravessado o Canal de ferry (ainda não havia túnel), segue pelo Expresso do Oriente e depois atravessa a Turquia e o Irão. Segue-se o Paquistão (não há comboios no Afeganistão) e vários percursos na Índia, com um saltinho ao Ceilão. Sem ligação da Índia para o Sudeste Asiático e, no Sudeste Asiático, sem ligações entre países, Theroux faz vários percursos dentro de cada país, incluindo no seu roteiro a Birmânia, a Tailândia, Singapura e o Vietname em guerra. A China estava ainda interdita, pelo que o autor voa até ao Japão, onde circula de Norte a Sul em comboios que quase parecem os aviões que ele detesta, e daí para a Rússia, numa travessia agitada de barco, de onde regressou à Europa no Transsiberiano.

Muitos meses sobre carris de caminho-de-ferro cansam mesmo os grandes viajantes de comboio, como Theroux, que não consegue esconder que a travessia da Rússia no Transsiberiano, que nos parece uma aventura de primeiro calibre, já lhe foi penosa. Quanto ao percurso de Moscovo a Londres, ocupa talvez menos de uma página.

Curiosamente, o autor não perde tempo a falar dos locais por onde passa, está mais interessado em descrever a própria viagem: os comboios, a paisagem que corre do lado de fora das janelas e, sobretudo, as pessoas que vai encontrando no comboio. O livro está recheado de pequenos episódios, alguns muito divertidos, outros muito interessantes, passados com as pessoas que lhe entram pelo compartimento adentro ou que se sentam à sua mesa no vagão-restaurante. E é com este mosaico de histórias que Theroux consegue ir fazendo um retrato dos povos e, de alguma forma, da própria humanidade.

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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Viagens by Paul Bowles

ViagensViagens by Paul Bowles
My rating: 5 of 5 stars

Fico surpreendido sempre que leio sobre Bowles e reparo, como se fosse a primeira vez, que Bowles nasceu em Nova Iorque, que era americano. Sempre me parece que Bowles é um dos derradeiros súbditos do império britânico em decadência. A subtileza e erudição do pensamento, a abertura de espírito, a curiosidade, a ironia e o humor discretos, o comportamento contido, sem sentimentalismo, um certo sentimento de classe e o sentir que o mundo é a sua casa, tudo faz dele, para mim, um típico viajante britânico, a par de outros grandes viajantes britânicos do século XX, como E.M. Forster, Jan Morris ou Robert Byron.

"Viagens" é uma coletânea das crónicas sobre os lugares e as pessoas que Bowles foi visitando e conhecendo ao longo da sua vida. Escreveu-as para revistas de viagens e jornais, bem como para introduções ou prefácios a livros de fotografias. As suas crónicas não têm um tema agregador nem uma linha de argumentação específica - não foram escritas para serem publicadas em conjunto - mas não surgem desconexas: o cimento que as agrega é personalidade de Bowles, a fluência, articulação e elegância da sua escrita. Mais do que crónicas, lêem-se como contos ou pequenos romances.

Porque estão organizadas cronologicamente, à medida que a leitura das crónicas progride vamos sendo inundados pelo sentimento de que certos paraísos se perderam definitivamente. Os encantos e mistérios de Marrocos, a Tânger dos tempos do estatuto internacional, a cultura berbere sendo diluída pela árabe, a música e os instrumentos tradicionais do Rife, o isolamento do deserto do Saara, uma ilha perdida no Ceilão, tudo parece esboroar-se inexoravelmente de crónica para crónica. Mas esta melancolia que se desprende das linhas de Bowles não é deprimente, sentimentalista ou conservadora. Parece-se mais com aquele sentimento morno e bom com que nos recordamos dos melhores anos da nossa juventude. E é esse sentimento morno e bom que resta depois de terminada a leitura destas "Viagens".

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