quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

O Grande Bazar Ferroviário by Paul Theroux

O Grande Bazar FerroviárioO Grande Bazar Ferroviário by Paul Theroux
My rating: 4 of 5 stars

O relato de Paul Theroux de uma grande viagem de comboio que fez em 1973, com partida e chegada a Londres ("todas as viagens são circulares"). Atravessado o Canal de ferry (ainda não havia túnel), segue pelo Expresso do Oriente e depois atravessa a Turquia e o Irão. Segue-se o Paquistão (não há comboios no Afeganistão) e vários percursos na Índia, com um saltinho ao Ceilão. Sem ligação da Índia para o Sudeste Asiático e, no Sudeste Asiático, sem ligações entre países, Theroux faz vários percursos dentro de cada país, incluindo no seu roteiro a Birmânia, a Tailândia, Singapura e o Vietname em guerra. A China estava ainda interdita, pelo que o autor voa até ao Japão, onde circula de Norte a Sul em comboios que quase parecem os aviões que ele detesta, e daí para a Rússia, numa travessia agitada de barco, de onde regressou à Europa no Transsiberiano.

Muitos meses sobre carris de caminho-de-ferro cansam mesmo os grandes viajantes de comboio, como Theroux, que não consegue esconder que a travessia da Rússia no Transsiberiano, que nos parece uma aventura de primeiro calibre, já lhe foi penosa. Quanto ao percurso de Moscovo a Londres, ocupa talvez menos de uma página.

Curiosamente, o autor não perde tempo a falar dos locais por onde passa, está mais interessado em descrever a própria viagem: os comboios, a paisagem que corre do lado de fora das janelas e, sobretudo, as pessoas que vai encontrando no comboio. O livro está recheado de pequenos episódios, alguns muito divertidos, outros muito interessantes, passados com as pessoas que lhe entram pelo compartimento adentro ou que se sentam à sua mesa no vagão-restaurante. E é com este mosaico de histórias que Theroux consegue ir fazendo um retrato dos povos e, de alguma forma, da própria humanidade.

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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Viagens by Paul Bowles

ViagensViagens by Paul Bowles
My rating: 5 of 5 stars

Fico surpreendido sempre que leio sobre Bowles e reparo, como se fosse a primeira vez, que Bowles nasceu em Nova Iorque, que era americano. Sempre me parece que Bowles é um dos derradeiros súbditos do império britânico em decadência. A subtileza e erudição do pensamento, a abertura de espírito, a curiosidade, a ironia e o humor discretos, o comportamento contido, sem sentimentalismo, um certo sentimento de classe e o sentir que o mundo é a sua casa, tudo faz dele, para mim, um típico viajante britânico, a par de outros grandes viajantes britânicos do século XX, como E.M. Forster, Jan Morris ou Robert Byron.

"Viagens" é uma coletânea das crónicas sobre os lugares e as pessoas que Bowles foi visitando e conhecendo ao longo da sua vida. Escreveu-as para revistas de viagens e jornais, bem como para introduções ou prefácios a livros de fotografias. As suas crónicas não têm um tema agregador nem uma linha de argumentação específica - não foram escritas para serem publicadas em conjunto - mas não surgem desconexas: o cimento que as agrega é personalidade de Bowles, a fluência, articulação e elegância da sua escrita. Mais do que crónicas, lêem-se como contos ou pequenos romances.

Porque estão organizadas cronologicamente, à medida que a leitura das crónicas progride vamos sendo inundados pelo sentimento de que certos paraísos se perderam definitivamente. Os encantos e mistérios de Marrocos, a Tânger dos tempos do estatuto internacional, a cultura berbere sendo diluída pela árabe, a música e os instrumentos tradicionais do Rife, o isolamento do deserto do Saara, uma ilha perdida no Ceilão, tudo parece esboroar-se inexoravelmente de crónica para crónica. Mas esta melancolia que se desprende das linhas de Bowles não é deprimente, sentimentalista ou conservadora. Parece-se mais com aquele sentimento morno e bom com que nos recordamos dos melhores anos da nossa juventude. E é esse sentimento morno e bom que resta depois de terminada a leitura destas "Viagens".

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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo by Haruki Murakami

Auto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de FundoAuto-retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo by Haruki Murakami
My rating: 4 of 5 stars

Murakami aproveita a sua paixão pela corrida para nos falar francamente de si, sobre como decidiu ser romancista, sobre como, quando começou a escrever a sério, compreendeu que tinha de correr a sério, e de como escrever e correr estão tão interligados entre si que uma coisa não sobrevive sem a outra. Sim, porque escrever um romance é como enfrentar uma maratona: "a dor é inevitável, mas o sofrimento é uma opção".

O tom é muito coloquial, familiar, quase uma conversa longa num dia chuvoso, com um amigo, evitando portanto a pompa com que alguns autores exibem as suas memórias, ou a falsa modéstia de algumas autobiografias. E o entusiasmo pela corrida (por vezes parecendo mais forte do que o amor pela escrita) contagia-nos: "Enquanto corro, vou dizendo a mim mesmo para pensar num rio. Pensa nas nuvens, digo. Mas no fundo não estou a pensar em nada de concreto. Continuo, pura e simplesmente, a correr nesse confortável vazio que me é tão familiar, no interior do meu nostálgico silêncio. É isso que é qualquer coisa de profundamente maravilhoso. Digam o que disserem."

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domingo, 8 de outubro de 2017

Resident Alien: The New York Diaries by Quentin Crisp

Resident Alien: The New York DiariesResident Alien: The New York Diaries by Quentin Crisp
My rating: 4 of 5 stars

Quentin Crisp foi um indivíduo original e único e as suas memórias dos anos de Nova Iorque como "alien", nos dois sentidos, de estrangeiro e estranho (extraterrestre), são extraordinariamente perspicazes, inteligentes e por vezes controversas, tanto no que se refere aos comportamentos e hábitos dos seus compatriotas ingleses, que deixara para trás, como aos dos americanos que o acolheram, como aos seus próprios!

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sábado, 30 de setembro de 2017

Nos Passos de Santo António by Gonçalo Cadilhe

Nos Passos de Santo AntónioNos Passos de Santo António by Gonçalo Cadilhe
My rating: 3 of 5 stars

Gonçalo Cadilhe parte de Coimbra para visitar os lugares por onde Santo António passou: Sevilha, Marraquexe, Argélia e Tunísia, Sicília, Roma, Assis, Bolonha. Moncenisio, a Provence francesa e, finalmente, Pádua. Tendo o santo vivido no século XIII, existe pouca documentação sobre o percurso do franciscano, e as hagiografias, não tendo como propósito descrever a viagem, mas glorificar o homem, não são fontes fiáveis. Apesar de tudo, especulando um pouco aqui e ali, Cadilhe vai reconstituindo a rota quase sempre de forma credível, aproveitando para nos contar algumas das aventuras que viveu e das impressões com que ficou.


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