Mostrar mensagens com a etiqueta Bruce Chatwin. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bruce Chatwin. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Os Gémeos de Black Hill by Bruce Chatwin

Os Gémeos de Black HillOs Gémeos de Black Hill by Bruce Chatwin
My rating: 4 of 5 stars

A vida de dois gémeos inseparáveis e idênticos em quase tudo, exceto nalguns aspetos da personalidade (um extrovertido, com vontade de namorar e casar, outro introvertido, quase com medo das mulheres), que vivem na fronteira entre a Inglaterra e o País de Gales.

Mais do que a história dos gémeos, o que é mais interessante neste livro é a escrita lisa e enxuta de Bruce Chatwin, interessada só nos factos, com uma frieza quase científica que apenas se deixa levar pela emoção já quase no final, com a prenda dos 80 anos que o sobrinho-neto engendra para os gémeos. Curiosamente (ou propositadamente), é a ausência de emoção ao longo do texto que faz com que a sua aparição inesperada quase no final tenha um efeito mais marcante, como se nos fosse dado a assistir a uma enorme explosão de fogo de artifício inesperada e bela.

View all my reviews

terça-feira, 10 de julho de 2018

O Vice-Rei de Ajudá by Bruce Chatwin

O Vice-Rei de AjudáO Vice-Rei de Ajudá by Bruce Chatwin
My rating: 4 of 5 stars

A biografia romanceada de Francisco Félix de Souza (no livro Francisco Manoel da Silva) um influente escrivão da Feitoria de Ajudá que deixou uma prole imensa.

A prosa de Chatwin é lisa e concentrada e deixa-nos um sabor a pouco. Gostaríamos de poder saber mais e em mais detalhe sobre a vida daquela gente e sobre a sua época.

Apesar de conseguir distanciar-se sobriamente, relatando factos e evitando ser moralista ou faccioso, ao lermos "O Vice-Rei de Ajudá" não podemos deixar de pensar que nós, portugueses, continuamos a varrer para debaixo do tapete essa passagem importante da história de Portugal, que tanto nos envergonha, a do tráfego de escravos. Escandalizamo-nos com o holocausto nazi, com as limpezas étnicas em alguns países africanos, com o radicalismo religioso islâmico, com o apartheid na África do Sul, mas nunca, como diz Miguel Vale de Almeida, fomos capazes de fazer um esforço de Verdade e Reconciliação, nem, como diz também Vale de Almeida, de reconhecer que, apesar de afirmarmos e (pior!) pensarmos o contrário, somos uma sociedade profundamente racista.

Nota: vale a pena ouvir a entrevista de Miguel Vale de Almeida: "Ninguém imagina (de verdade) um português negro"

View all my reviews

quarta-feira, 27 de junho de 2018

The New Granta Book of Travel by Liz Jobey

The New Granta Book of TravelThe New Granta Book of Travel by Liz Jobey
My rating: 5 of 5 stars

Uma antologia de pequenas histórias de viagens, com uma grande diversidade de temas e estilos de escrita, que é o que uma antologia deve ser e que é parte do enorme interesse que este livro teve para mim. A outra parte, a maior, são os temas, por vezes surpreendentes mas quase sempre interessantes, que os autores abordam.
Já não são apenas relatos da exploração de partes remotas do mundo ou das primeiras grandes viagens de turismo de abastados europeus e americanos fazendo o seu "grand tour" das civilizações clássicas. Agora, os autores levam-nos a "viajar" a pequenos recantos irrelevantes, a "presenciar" acontecimentos marcantes, a "visitar" lugares na história ou mesmo nas mentalidades, até às ruas da prostituição barata da Tailândia (Lovely Girls, Very Cheap, de Decca Aitkenhead), a uma pequena cidade dos EUA, como tantas outras, que apenas se distingue por estar exatamente no centro do país (This is Centerville, de James Buchan), pelo vale do Mississipi abaixo durante uma das suas poderosas enchentes (Mississipi Water, Jonathan Raban), pela Sibéria pós-comunista (Siberia, de Colin Thubron), ao que significa ser homossexual numa tribo de índios do Amazonas (The Life and Death of a Homosexual, de Pierre Clastres), ao seio de um grupo de "terroristas" iraquianos (Osama's War, de Wendell Steavenson), atraídos a uma "tourist-trap" nas florestas do Congo (The Congo Dinosaur, Redmond O'Hanlon), a devolver um biscoito roubado da cabana do explorador Robert Scott, na ilha de Ross, Antárctida (Captain Scott's Biscuit, de Thomas Keneally) ou simplesmente numa saída noturna mágica, e um pouco louca, a uma montanha gelada do noroeste da Inglaterra durante um temporal de neve violento (Nightwalking, por Robert Macfarlane).
Concedo que muitas vezes estas histórias parecem-se mais com artigos de jornalismo do que com literatura de viagens, mas não me importo: fazem-me sonhar e ansiar por sair do conforto do sofá onde leio este livro, para descobrir mundos desconhecidos e empolgantes.

View all my reviews

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Granta 10: Travel Writing by Bill Buford

Granta 10: Travel WritingGranta 10: Travel Writing by Bill Buford
My rating: 4 of 5 stars

Depois da II Grande Guerra Mundial, quando todos pensavam definitivamente enterrada a era das grandes viagens e explorações pelo mundo, e com ela a literatura de viagens, a Granta e Bill Bufford, demonstraram que este género literário ainda não tinha morrido e tinha espaço para se reinventar. Já não se tratavam agora das grandes epopeias de aventura e descoberta, procurando civilizações perdidas (como em "A Estrada para Oxiana" de Robert Byron ou "Um Gentleman na Ásia" de Somerset Maugham) ou tentando alcançar zonas remotas e inóspitas, (como em "Farthest North" de Fridjtof Nansen, ou "The Worst Journey in the World" de Ashley Cherry-Garrard). As experiências dos novos escritores de viagens passaram a ser agora mais pessoais e limitadas. Afinal, o mundo já estava completamente descoberto! Para além de serem contadas na primeira pessoa, estas novas histórias de viagens partilham com os clássicos de outrora o poder de nos empolgar, de nos deixar cheios de vontade de deixar os sofás das nossas vidas monótona para partirmos à descoberta de novas maravilhas. Em vez de nos levarem a descobrir o Polo Sul ou a Transoxiana, estes novos escritores de viagens (Chatwin, Morris, O'Hanlon, Theroux, Thubron, Lewis...) colocam-nos em cenários modernos, por vezes dramáticos, como guerras e golpes de estado, mas outras vezes quase irrelevantes, como a rivalidade entre duas pequenas aldeias italianas, a estrada US281 que atravessa o Texas de norte a sul ou um campo de treinos militar. São por vezes histórias de descoberta do outro, mas muitas vezes também histórias de descoberta pessoal.

View all my reviews

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Na Patagónia by Bruce Chatwin

Na Patagónia Na Patagónia by Bruce Chatwin
My rating: 4 of 5 stars

Em 1974, Bruce Chatwin, um inglês "queimado", segundo disse, "por trabalhar numa espécie de casa funerária de luxo [a leiloeira Sotheby's] (onde a vida lhe parecia) gasta em homologações e avaliações de apartamentos de mortos" e depois de um período como editor de arte no Sunday Times, decide partir sem aviso: "Vim para a Patagónia", foi o curto telegrama que enviou ao seu chefe de redação, já depois de ter chegado.
Desde pequeno, Chatwin sonhava visitar a Patagónia, a terra de onde provinha o pedaço de pele de "brontossauro" que tanto o fascinava em casa dos seus avós, e é a partir desta memória que parte para a sua "narrativa de uma viagem real mas que também foi simbólica... (...) o narrador viaja para um país distante à procura de um estranho animal: pelo caminho depara-se com estranhas situações, pessoas e outros livros, que lhe contam estranhas histórias que ele colige para deixar um testemunho."

Embora seguindo a tradição de Robert Byron, que tanto admirava, Chatwin é profundamente inovador neste livro, tanto na forma como no estilo condensado e sucinto da escrita. Esta é literatura de viagens, mas uma literatura que nos faz viajar não só pela geografia dos locais como também pelo espírito da terra, moldado pelas histórias dos homens que por lá passaram e morreram. Histórias dos índios da Terra do Fogo (dizimados pelos colonos e pela varíola no final do século XIX), histórias das peripécias por que passou o dicionário da metafórica língua yamani, elaborado pelo reverendo Thomas Bridges, o grande e único monumento que subsistiu da cultura desses povos austrais desaparecidos. Lendas sobre os fugitivos da polícia que vaguearam por ali (Butch Cassidy and the Kids, os revolucionários anarquistas argentinos), de refugiados de guerras e de perseguições (galeses, escoceses, judeus, nazis alemães...) ou ainda de gente aventureira, que não consegue estar fechada entre as quatro paredes de uma casa de cidade e prefere a solidão e os perigos dos mares e terras do fim do mundo, como o marinheiro Charley, que conseguiu salvar toda a tripulação do seu navio encalhado perto do Estreito de Magalhães tal como profetizado por um louco à sua partida da Austrália, meses antes, ou Herman Eberhard, o "rapaz viril com tremendos apetites" que escapou da Academia Militar prussiana e viria a estabelecer-se em Puerto Consuelo, depois de subir a remos o desfiladeiro da Última Esperança, onde descobriu uma gruta, sobre uma falésia, repleta de ossos e da pele do "brontossauro" que o marinheiro Charley haveria de oferecer ao avô de Bruce Chatwin e o levaria a escrever este livro.

View all my reviews