terça-feira, 5 de julho de 2016

Bella Donna: Amor no Feminino by Fabiula Bortolozzo

Bella Donna: Amor no Feminino Bella Donna: Amor no Feminino by Fabiula Bortolozzo
My rating: 4 of 5 stars

Nos tempos da velha Republica dos Doges venezianos, Antonia, uma viúva aristocrata, decide passar o resto dos seus dias num convento da ilha de Murano após a morte do seu marido. Parte em busca de tranquilidade mas, ao invés, encontra emoção, dor e mistério.

Um romance histórico de amor entre duas mulheres que consegue escapar ao lugar-comum das paixões inflamadas, embalando-nos, com a sua escrita escorreita, para uma leitura compulsiva de um enredo quase policial, muito bem arquitectado e com um desfecho inesperado.

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terça-feira, 7 de junho de 2016

Todo Teu: Terça by Nuno Oskar

Todo Teu: Terça Todo Teu: Terça by Nuno Oskar
My rating: 4 of 5 stars

Terça-feira, 11 de junho. Depois de uma zanga monumental, Nuno e Duarte iniciam uma semana de trabalho, de costas viradas um para o outro. Mas há qualquer coisa em Nuno que atrai o Duarte, um misto de inocência perdida e irreverência que ele não encontra nos homens maduros que se submetem às suas ordens no Kheiron, o exclusivo clube privado lisboeta que frequenta. Nuno, por seu lado, sente-se magoado com Duarte, que foi insensível à sua experiência traumática com o primo, Pedro. Mas Nuno nunca conheceu um homem como Duarte e fica deslumbrado com a sua irmã, Renata!

Este é, sem dúvida, o melhor dos quatro livros da série "Todo Teu" publicados até agora! O romance de Nuno e Duarte desenvolve-se, a escrita está mais dinâmica, os diálogos ainda mais credíveis, o enredo é, por vezes, surpreendente. E com o quarto episódio chega mais um personagem magnético, a fabulosa Renata, a irmã do Duarte! O Nuno Oskar tem uma imensa capacidade para caracterizar personagens; quem consegue, por exemplo, esquecer a Elsa? Parabéns, Nuno!

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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Yoga para pessoas que não estão para fazer yoga by Geoff Dyer

Yoga para pessoas que não estão para fazer yoga Yoga para pessoas que não estão para fazer yoga by Geoff Dyer
My rating: 4 of 5 stars

Um livro de histórias "em" viagem e não "de" viagem, porque Dyer não escreve sobre as suas viagens, escreve sobre si e sobre a humanidade, usando para isso alguns dos muitos cenários exóticos ou improváveis (como as ruínas da Detroit industrial ou a Burning Man City) que visitou. É quase um livro de filosofia, e a menção ao "ioga" fica-lhe muito bem quando se pensa em reflexão e meditação. Mas não quando se pensa em calma e tranquilidade: as aventuras de Dyer são sempre arriscadas e emocionantes (apesar de ele se retratar como medroso) e sobretudo, cheias de uma ironia muito britânica que permanece mesmo depois de fecharmos a última página do livro.

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sexta-feira, 20 de maio de 2016

Gratidão by Oliver Sacks

Gratidão Gratidão by Oliver Sacks
My rating: 4 of 5 stars

Este pequeno livro colige os quatro últimos ensaios que Oliver Sacks publicou no The New York Times, antes de morrer, em 2015, vítima de um cancro incurável. Com exceção do primeiro ensaio, "Mercúrio", os restantes foram escritos já depois de Sacks saber que estava condenado a morrer num prazo relativamente curto, mas de todos eles se desprende um grande amor pela vida e pela natureza, uma imensa gratidão por tudo o que nos é dado experimentar enquanto estamos vivos, "por podermos contemplar surpreendidos o pontilhado brilhante da Via Láctea numa noite escura de verão."

Dos quatro ensaios, o mais marcante é, porventura, o último do livro e o último que o autor escreveu poucos dias antes de morrer, "Sabat". Nele, Sacks recua até à sua infância para explicar com nostalgia o que era o Sabat judeu, o dia em que o ciclo semanal de trabalho infernal, correria e preocupações era interrompido para contemplação tranquila do divino. Mas Sacks afastou-se da religião quando a mãe soube da sua homossexualidade e o acusou, citando as Escrituras, "És uma abominação. Oxalá nunca tivesses nascido."

Sacks foi um homem da ciência, curioso, um médico preocupado com a salvação de vidas, mas também fascinado pelos elementos inertes da química. Nunca mais se reaproximou da religião, nem mesmo quando estava a chegar ao fim da sua vida e recordou com ternura o Sabat da sua infância: "E hoje, enfraquecido, sem fôlego, com os meus músculos outrora firmes debilitados pelo cancro, dou por mim a pensar, cada vez mais, não no sobrenatural ou no espiritual, mas no que significa viver uma vida boa e digna de ser vivida, de modo que nos sintamos em paz connosco. Descubro que os meus pensamentos se voltam para o Sabat, o dia do repouso, o sétimo dia da semana, e talvez também o sétimo dia da nossa própria vida, quando sentimos que fizemos o nosso trabalho e que, com a consciência em paz, podemos descansar."

Como referiu Christopher Hitchens em Mortalidade, se, quando se aproximar a minha hora, eu pedir para me converter, saibam que eu estou louco, e, por favor, não mo permitam.

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Era Uma Vez em Goa by Paulo Varela Gomes

Era Uma Vez em Goa Era Uma Vez em Goa by Paulo Varela Gomes
My rating: 4 of 5 stars

Graham, um inglês, entra pela fronteira terrestre de Goa em direção à mítica praia de Anjuna, que vira numa fotografia paradisíaca em casa de um amigo em Bombaim. Estamos em 1963, a Índia de Nehru acabou de invadir a colónia portuguesa e Graham é moreno, poderia bem ser um "pacló", o que levanta dúvidas às novas autoridades do território, em estado de alerta contra possíveis infiltrações dos antigos administradores. Quando finalmente consegue chegar a Anjuna, viajando em camiões e camionetas (com velhos ao colo), carroças puxadas por búfalos, à boleia, depois de inúmeras peripécias (acolhido por um médico goês, encharcado pelas monções, ameaçado com uma pistola por um agente da PIDE, apanhando boleia de um aristocrata local que tem, de visita, o escritor Graham Greene...), descobre que a realidade não corresponde frequentemente ao mito, sendo muitas vezes pior, mas podendo ser, por vezes, muito melhor e surpreendente.

Este é um livro de viagens a fingir! A fingir porque é narrado na primeira pessoa, por Graham, um inglês, quando o autor é Paulo Varela Gomes, um português; a fingir porque descreve uma viagem que não aconteceu, embora saibamos que o autor conhece bem Goa por lá ter vivido alguns anos; a fingir porque o próprio autor o confessa, em divertidas notas de rodapé. Mas apesar de ser a fingir, consegue proporcionar-nos uma emocionante viagem a uma época em que Goa já não era portuguesa e católica, mas ainda não era indiana e hindu, quando ainda se falava português e concanim, mas já se começava a aprender inglês nas escolas, numa época em que ainda não tinham chegado as hordas de turistas, primeiro os hippies em busca de um Shangri-La no Índico e depois dos gigantescos resorts "all-inclusive" à beira-mar.

Um livro de viagens é como um rio, vive da dinâmica do caminho, da perseguição tenaz de um destino, de um objetivo. "Era uma Vez em Goa" é também um rio que corre inicialmente muito forte, montanhoso, mas que, com a chegada a Anjuna, acalma como se entrasse numa albufeira de uma grande barragem que lhe impede a marcha. Aí chegado, "Era uma Vez em Goa" parece-se mais com um romance do que com um livro de viagens. Mas esse lago sem saída aparente é indispensável para que Graham se descubra (no pedaço de escrita mais poderosa de toda a narrativa) e descubra que o seu destino é prosseguir a viagem.

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