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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

90 e Mais Quatro Poemas by C.P. Cavafy

90 e Mais Quatro Poemas 90 e Mais Quatro Poemas by C.P. Cavafy
My rating: 4 of 5 stars

Um conjunto de poemas de Constantino Cavafy selecionados, traduzidos, introduzidos e ricamente anotados por Jorge de Sena, com o objetivo de apresentar todas as fases da obra do grande poeta da Alexandria grega.

A poesia de Cavafy é etérea e nostálgica, usando as palavras de deuses, reis e guerreiros da antiguidade para evocar breves episódios dramáticos da história longínqua dos mundos grego e romano do período clássico, através dos quais nos deixa entrever os grande embates que se travavam à época, como o declínio político grego perante o poder romano ou a expansão inexorável da cristandade. Quando como em "Mires" ou "Deus Abandona Marco António", por exemplo, Cavafy consegue associar o instante histórico a uma tensão emocional muito forte, a sua poesia toca-me profundamente.

Mas não só, também me toca a sua poesia muito pessoal, cheia de uma nostalgia leve e enternecedora, em que Cavafys, poeta velho, recorda na primeira pessoa as emoções que experimentou há longos anos perante a beleza dos jovens por quem se apaixonou e que, resignado, já só tem esperança de reviver na memória.

Não deve passar dos vinte e dois. Contudo, / quase tenho a certeza de que há uns vintes anos / este mesmo corpo foi que eu possuí. // Não é uma ilusão do meu desejo. / Entrei neste casino apenas há instantes, / não tive tempo de beber de mais. / Foi este mesmo corpo que eu possuí. // Se não me lembra aonde - pouco importa. // Na mesa ao lado, agora, vem sentar-se: / ah reconheço os gestos dele - e sob a roupa / vejo-lhe nus os membros que eu amei.

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domingo, 26 de outubro de 2014

Poemas e Prosas by C.P. Cavafy

Poemas e ProsasPoemas e Prosas by C.P. Cavafy
My rating: 3 of 5 stars

Joaquim Manuel Magalhães em colaboração com o grego Nikos Pratsinis, puseram mão à obra da tradução de alguma poesia e prosa de Cavafy (ou Kavafis, como os autores preferem) com o objetivo de ser o mais fiel possível ao original. Mantiveram as rimas finais e as interiores possíveis, mantiveram a sintaxe dos versos, utilizaram as palavras em português que mais se aproximavam ao significado original do grego falado em Alexandria à época e mantiveram até a pontuação original, mesmo quando parecia não fazer sentido. Tudo para evitar "recorrer a uma tradução interpretativa, mantendo as mesmas flexibilidades de sentido do original."

Apesar de compreender a intenção, não deixo de ficar incomodado com os resultados, que são, por vezes, desconcertantes. Creio que, como alguém dizia, não se faz tradução de poesia: reescreve-se poesia, e tanto é autor o que a escreveu na língua original como o que a "traduziu" para outra língua. É por isso que, apesar de respeitar o esforço dos autores e de compreender que esta tradução fiel despertará seguramente o interesse de muitos leitores, me emocionam mais as versões de Jorge de Sena, em 90 e Mais Quatro Poemas.
Transcrevo a seguir, como exemplo, as duas traduções de um dos mais belos poemas de Cavafy, em que ele se refere a um Marco António derrotado, em vésperas da ocupação de Alexandria pelo seu rival Octávio e do seu próprio suicídio, ao lado da sua amada Cleópatra:

O DEUS ABANDONA ANTÓNIO (versão J.M.Magalhães e N. Pratsinis)
Quando de repente, à hora da meia-noite, se ouvir
passar uma turba invisível
com músicas requintadas, com vozes -
a tua sorte que já cede, as tuas obras
que falharam, os planos da tua vida
que deram em equívoco, não os deplores.
Como preparado há muito, como corajoso,
despede-te dela, da Alexandria que se vai embora.
Sobretudo não te enganes, não digas que foi
um sonho, que foram defraudados os teus ouvidos;
tais esperanças vãs não te rebaixes a aceitar.
Como preparado há muito, como corajoso,
como convém a ti que mereceste tal cidade,
aproxima-te resoluto da janela,
e ouve com emoção, mas não
com as súplicas e as queixas dos covardes,
qual último deleite, os sons,
os instrumentos requintados da turba oculta,
e despede-te dela, da Alexandria que perdes.


O DEUS ABANDONA MARCO ANTÓNIO (versão de J. Sena)
Quando subitamente se ouve à meia-noite
um cortejo que invisível passa
com sublimes músicas e cânticos -
a tua fortuna que desiste, as tuas obras
que falharam, os planos de uma vida inteira
tornados nada -, não te vale chorar.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente
diz-lhe adeus, à Alexandria que de ti se afasta.
Acima de tudo não te iludas, nunca digas que foi
apenas sonho, um engano, quanto ouviste:
não te agarres a tão vãs esperanças.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente,
e como é próprio de quem, como tu, era digno de uma tal cidade,
aproxima-te firme da janela,
e escuta emocionado, mas não
com lamentos e súplicas cobardes,
escuta, derradeira alegria tua, os sons que passam,
os sublimes instrumentos do cortejo místico,
e diz adeus, adeus à Alexandria que perdeste.



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quarta-feira, 26 de março de 2014

Poemas Homoeróticos Escolhidos by Paulo Azevedo Chaves and Raimundo de Moraes

Poemas Homoeróticos EscolhidosPoemas Homoeróticos Escolhidos by Paulo Azevedo Chaves and Raimundo de Moraes
My rating: 4 of 5 stars

Poemas Homoeróticos Escolhidos é uma coletânea de poesia que reúne sete poemas de Paulo Azevedo Chaves, publicados anteriormente em livros de sua autoria, para além de seis inéditos. Do mesmo autor, constam do volume oito traduções publicadas em livros anteriores, a partir de 1984, de grandes poetas como Walt Whitman, Abu Nuwas, Federico Garcia-Lorca, Luís Cernuda, Jean Genet, Constantino Cavafy ou Paul Verlaine . Os textos foram traduzidos do inglês, francês e espanhol. Os poemas selecionados por Raimundo de Moraes para esta coletânea foram publicados em dois livros de sua autoria, ambos lançados no Recife, em 2010: Baba de Moço (com assinatura de seu heterônimo Aymmar Rodriguéz) e Tríade. Na secção In Memoriam são homenageados dois poetas que se destacam, respectivamente – o brasileiro Cassiano Nunes e o mestre português António Botto. Um poema famoso de cada um deles consta desta secção.

Explica Paulo Azevedo Chaves acerca dos seus inéditos nesta coletânea: "procurei seguir à risca o conselho de Keats no dístico final de sua bela Ode Sobre uma Urna Grega: «Beleza é verdade, verdade, beleza, – isso é tudo / Que sabeis na terra e tudo que precisais saber». O que muitos certamente enxergarão como vulgaridade, indecência, obscenidade, para mim nada mais é do que a busca de uma linguagem visceral em consonância com o que pretendo exprimir – a realidade nua e crua do sexo, que deve prescindir de eufemismos e de termos e construções verbais bem comportados e/ou eruditos para descrevê-la e para exprimi-la. Entre quatro paredes, os homens, via de regra, transam como gatos – com brutalidade e sem meias ações, deixando aflorar o instinto despojado das barreiras do convencionalismo. Para descrever esse momento íntimo e brutal do sexo, seja ele homo ou heterossexual, usei uma linguagem igualmente íntima e brutal e, desse modo, na verdade do verbo encontro a beleza preconizada por Keats. Pois para mim, embora nem sempre beleza seja verdade, Verdade (com V maiúsculo) é sempre beleza."

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