Mostrar mensagens com a etiqueta Armando Silva Carvalho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Armando Silva Carvalho. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Os Ovos d'Oiro by Armando Silva Carvalho

Os Ovos d'OiroOs Ovos d'Oiro by Armando Silva Carvalho


Um "gás inerte" é aquele que não reage com outros elementos. Este livrinho de poemas é feito, para mim, de "poesia inerte". Não me diz nada, não reage comigo... mas isso não quer dizer que não tenha enorme qualidade, que não desperte emoções fortes, evoque imagens belas ou soe em ritmos melódicos aos ouvidos de outros leitores... pelo que serei eu seguramente, que sou "inerte" e não a poesia de Armando Silva Carvalho! Não sei, e é por isso não me atrevo a dar-lhe estrelitas. É assim, como que uma abstenção.

Transcrevo apenas um poema (João Cabral - VI) a que não fiquei completamente "inerte", porque, ao lê-lo, me lembrei dos sorteios da FIFA.

A língua
oásis branco
pousada
sobre
as coisas.

Pedúnculo
salivando
inteiramente
inverso.

Nariz
sondando a chuva
caindo
contra
as cores.

Por
sobre
o mar
das musas
a colisão dos sonhos.

Um polvo
que procura
as impassíveis
notas.

São os vapores
da pedra
e o seu anel
de cores.

Nas rochas
moles
do gosto
o chapinhar
doente.

A contra-
gosto
os silvos
contra
o coração.

A Passionária
entrando
pelo poço
docemente.

Podemos
deitar fora
o que os cegos
inventam?

Acupunctura
d'alma.

PS: as mesmas equipas jogaram também nas edições anteriores do torneio (João Cabral - I a V) só que calharam em grupos diferentes...

View all my reviews

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Donamorta: Pranto Gregoriano by Armando Silva Carvalho

Donamorta: Pranto GregorianoDonamorta: Pranto Gregoriano by Armando Silva Carvalho
My rating: 4 of 5 stars

Um dia da vida de Gregório Pamsa: precisamente o dia que se segue ao funeral da sua mãe, Donamorta. Gregório desperta lentamente, com dificuldade, masturba-se, vai fazer força para a casa de banho, responde ao vizinho que lhe bate à porta e escandaliza 3 Testemunhas de Jeová quando lhes aparece à porta meio nu, vindo do chuveiro. Na subida a seguir à Rotunda, onde o seu Mini tem um furo quando vai a caminho de se encontrar com Musalinda, surge-lhe do nada um belo rapaz, "louro, boticelliano, que traz um brinco numa das orelhas" e que lhe troca o pneu e, em troca, apenas lhe rouba um beijo na boca. O dia segue, cheio de peripécias improváveis, encontros com prostitutas, amigos e amantes, um ex-subsecretário lhe coloca na mão um maço de apontamentos relatando as aventuras de um homossexual pelas zonas de engate do Porto, e termina numa festa na casa apalaçada de Marília, onde, a altas horas, Gregório dança até desmaiar. No quartito para onde o arrastam, o louro despe-o e, depois de despido, "agarra com ambas as mãos o rosto salpicado e dá-lhe um beijo na boca. As manchas desaparecem. Ele desaparece também. (...) Gregório está nu. Está limpo. (...) E com Gregório outro dia começa. Só este livro acaba. Paz à sua alma. Aleluia."

Os primeiros parágrafos, quando Gregório desperta lentamente, fizeram-me recordar a abertura sublime de Um Homem Singular, de Christopher Isherwood. Também aqui o personagem principal luta contra a perda recente de um ente querido, também aqui vagueia pelo dia, em vários encontros e desencontros, com amigos ou desconhecidos.
A linguagem e a imagética são muito ricas, cheias ironia, por vezes de sarcasmo, muita erudição e, simultaneamente, muito nonsense que atinge por vezes as raias do onírico ou do psicadélico. Um livrinho que merece segunda leitura!

View all my reviews