quarta-feira, 17 de abril de 2019

Caminhos de Evasão by Graham Greene

Caminhos de EvasãoCaminhos de Evasão by Graham Greene
My rating: 3 of 5 stars

Gosto de ler sobre autores e sobre livros, e quando é um autor que escreve sobre os seus livros, ainda para mais com a mestria com que Greene o faz, o prazer é ainda maior. Menos interessantes são as transcrições diarísticas dos tempos de Hanói e outros, que, de alguma forma, parecem deslocadas e incoerentes.

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quinta-feira, 7 de março de 2019

Journey Without Maps by Graham Greene

Journey Without Maps (Vintage Classics)Journey Without Maps by Graham Greene
My rating: 3 of 5 stars

Graham Greene, então um jovem escritor, parte em 1935 da Serra Leoa (ao tempo, colónia britânica) para a Libéria independente, onde pretende viajar pelo interior, num percurso nunca antes tentado por ocidentais, para o qual nem sequer existiam ainda mapas. Contrata uma grande equipa de carregadores e guias para o levarem, a ele e uma corajosa prima, a sua única companhia "civilizada".

Os motivos da viagem não são claros, ou não são claramente explicados pelo autor, que trabalharia mais tarde para os Serviços Secretos britânicos. Greene menciona apenas o seu fascínio pela África tropical e pela Libéria, então o único país independente de África, com uma história curiosa, por ter sido formado por emigrantes negros norte-americanos que desejavam criar um país democrático, esclarecido e livre em África, inspirados nos ideais dos pais fundadores dos EUA.

Depois de um início de viagem em que tudo é novo e fascinante, tanto para o autor como para as populações indígenas, que não estão habituadas a ver homens de pele branca, rapidamente tudo se torna monótono para Greene: a mesma paisagem de floresta húmida, as mesmas aldeias de cabanas de lama cobertas de colmo, os mesmos chefes, os mesmos "diabos" (feiticeiros) dançarinos, o mesmo calor insuportável, as mesmas reclamações dos carregadores... Nas últimas etapas, a viagem torna-se mesmo dolorosa, com o fim que parece nunca mais chegar, a época da chuvas que chega e torna os caminhos num mar de lama e mesmo umas febres fortes que quase o derrubam.

A juventude do autor também não ajuda no que respeita à escrita, que não consegue transformar a monotonia da viagem numa leitura interessante. Anos mais tarde, um Greene já maduro, falaria da sua estratégia para este livro em Ways of Escape ("Caminhos de Evasão", em português), indicando que tinha optado por um ponto de vista estritamente pessoal, que manifestamente, parece não ter resultado muito bem.

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Uma Ideia da Índia by Alberto Moravia

Uma Ideia da ÍndiaUma Ideia da Índia by Alberto Moravia
My rating: 3 of 5 stars

Na década de 1960, Alberto Moravia e Elsa Morante (a mulher de Moravia), acompanhados por Pier Paolo Pasolini, então um jovem desconhecido, fizeram uma viagem pela Índia. Da sua passagem pelo país surgiram dois livros, este por Moravia e outro de Pasolini (The Scent of India,"O Cheiro da Índia", tradução para português esgotada).

Os dois são livros interessantes, mas onde Moravia é racional, doutoral e frio, Pasolini é emocional, humano e caloroso. Pasolini escreve como quem filma. Observa, descreve, tenta compreender e extrapolar. O seu texto tem uma escala humana: segue uma família que se desloca no meio da multidão para fazer oferendas aos deuses do mar, fala com os rapazes que se aproximam a mendigar, fica fascinado com as cores, os cheiros e o calor das cremações de mortos em Benares, bem como com a passividade e resignação dos familiares. Moravia generaliza do alto da sua torre de marfim: sobre a pobreza humana, sobre o sistema de castas, sobre as religiões na Índia e o contraste entre hindus e muçulmanos, sobre o colonialismo britânico e Nehru (com quem se encontrou), sobre a monotonia da paisagem indiana. Não é na viagem que Moravia está interessado (nem uma vez fala dos seus companheiros de aventura), é a própria Índia que lhe interessa dissecar.

De certa forma, os dois livros completam-se e recomendo vivamente a sua leitura em conjunto (tal como fiz) ou sequencial, mas a escrita quente de Pasolini traça, em minha opinião, um melhor retrato da Índia.

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The Scent of India by Pier Paolo Pasolini

The Scent of India (Books on Asia)The Scent of India by Pier Paolo Pasolini
My rating: 4 of 5 stars

Na década de 1960, Alberto Moravia e Elsa Morante (a mulher de Moravia), acompanhados por Pier Paolo Pasolini, então um jovem desconhecido, fizeram uma viagem pela Índia. Da sua passagem pelo país surgiram dois livros, um por Moravia (Uma Ideia da Índia) e este ("O Cheiro da Índia", tradução para português esgotada).

Os dois são livros interessantes, mas onde Moravia é racional, doutoral e frio, Pasolini é emocional, humano e caloroso. Pasolini escreve como quem filma. Observa, descreve, tenta compreender e extrapolar. O seu texto tem uma escala humana: segue uma família que se desloca no meio da multidão para fazer oferendas aos deuses do mar, fala com os rapazes que se aproximam a mendigar, fica fascinado com as cores, os cheiros e o calor das cremações de mortos em Benares, bem como com a passividade e resignação dos familiares. Moravia generaliza do alto da sua torre de marfim: sobre a pobreza humana, sobre o sistema de castas, sobre as religiões na Índia e o contraste entre hindus e muçulmanos, sobre o colonialismo britânico e Nehru (com quem se encontrou), sobre a monotonia da paisagem indiana. Não é na viagem que Moravia está interessado (nem uma vez fala dos seus companheiros de aventura), é a própria Índia que lhe interessa dissecar.

De certa forma, os dois livros completam-se e recomendo vivamente a sua leitura em conjunto (tal como fiz) ou sequencial, mas a escrita quente de Pasolini traça, em minha opinião, um melhor retrato da Índia.

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Júlio de Melo Fogaça Júlio de Melo Fogaça by Adelino Cunha

Júlio de Melo FogaçaJúlio de Melo Fogaça by Adelino Cunha
My rating: 2 of 5 stars

Júlio Fogaça, filho de uma família rural abastada, chegou a ser durante alguns anos um dos principais dirigentes do Partido Comunista Português na clandestinidade, no período da ditadura de Salazar. Esteve preso várias vezes, tendo sido desterrado para o Tarrafal. A sua vida política terminou quando foi preso pela PIDE (a polícia política) uma última vez, em 1960, na Nazaré, onde se tinha deslocado com o seu namorado.

A tarefa de escrever a biografia de um dirigente homossexual do PCP na clandestinidade não pode ser fácil. E a vida de Júlio Fogaça foi atribulada, cruzando a história de um partido revolucionário em tempos de ditadura, quase desde a sua fundação, passando pelo pós-guerra de onde a União Soviética saiu triunfante, até à revolução de abril e à democracia. As raízes de Fogaça na burguesia rural, a sua prisão na colónia penal do Tarrafal, que foi "inaugurar", a sua ascensão e queda como dirigente do partido, aparentemente em confronto com Álvaro Cunhal, a questão da sua homossexualidade, não aceite na sociedade portuguesa à época e, talvez, também no interior do PCP, tudo fazem com que uma biografia de Fogaça possa transformar-se num livro interessantíssimo.

Mas neste livro há tantas incoerências, tantas interrogações, quando procuramos respostas, tanta especulação misturada com factos, tanta prosa e figuras de estilo desconcertantes, tanta repetição do que já estava dito, que acabamos frustrados com a leitura e com mais dúvidas do que certezas. É, infelizmente, uma oportunidade perdida de contar a vida de um homem corajoso e marcante.

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As Cidades Invisíveis by Italo Calvino

As Cidades InvisíveisAs Cidades Invisíveis by Italo Calvino
My rating: 3 of 5 stars

A descrição de um conjunto de cidades imaginadas, numa conversa entre Kublai Khan e Marco Polo. As cidades são símbolos ou metáforas. A linguagem é bela e poética. Mas, para mim, resultou monótono e aborrecido.

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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Na Índia Na Índia by Albert Londres

Na ÍndiaNa Índia by Albert Londres
My rating: 4 of 5 stars

Albert Londres, um jornalista francês (“o príncipe dos jornalistas”, como ficou conhecido), passa pela Índia nos meses de outubro e novembro de 1922. Em 10 capítulos (ou deveria dizer artigos?) faz-nos um retrato vivo e mordaz da Índia sob domínio inglês, quando os indianos já lutavam pela sua independência, que viriam a obter em 1947.

Interessado sobretudo nos aspetos políticos e sociais, Londres encontra-se com movimentos nacionalistas, tenta compreender Gandhi (não consegue!), Chittaranjan Das e Nehru, e visita Rabindranath Tagore, que Londres parece admirar e que também considera Gandhi um lunático (surpreendentemente para nós, habituados a ver Gandhi quase como um deus).

Apesar da sua curiosidade sobre o momento político, Londres não deixa, porém, de visitar Pondichérry, o principal estabelecimento “Índia francesa”. E este é o segundo ponto verdadeiramente interessante do livro, porque Londres consegue numa escrita ágil e imagética explicar-nos e comparar os colonialismos (palavra nossa) francês e inglês na Índia e no Sudeste Asiático. Deixo apenas um exemplo, para aguçar o apetite: “Samul era um Nativo. Quem nunca ouviu esta palavra, Nativo, da boca de um inglês, não faz a menor ideia da entoação de desprezo. Dir-se-ia que para o inglês existe em primeiro lugar o Inglês, depois o cavalo, depois o Branco em geral, em seguida as pulgas e os mosquitos e, finalmente, o Nativo ou indígena.”


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domingo, 16 de dezembro de 2018

Frederico Paciência by Mário de Andrade

Frederico PaciênciaFrederico Paciência by Mário de Andrade
My rating: 4 of 5 stars

Juca, um rapaz maroto, sente-se atraído pelo belo Frederico Paciência, e fica surpreendido por ser correspondido. Nem um nem outro compreendem a natureza dessa atração, chamando-lhe amizade talvez por não saberem, ou não terem sequer a capacidade para saber, que se trata de amor.
Um conto lindamente escrito, com grande sensibilidade e nostalgia, uma espécie de testamento sentimental de Mário de Andrade.

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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

A Lisboa de Eça de Queiroz A Lisboa de Eça de Queiroz by Marina Tavares Dias

A Lisboa de Eça de QueirozA Lisboa de Eça de Queiroz by Marina Tavares Dias
My rating: 3 of 5 stars

Uma coleção de fotos e gravuras sobre Lisboa, do século XIX e, por isso, contemporâneas de Eça de Queiroz, "comentadas" por excertos de obras do próprio Eça. O livro está organizado por zonas da cidade (Rossio, Chiado, etc.) e por categorias temáticas (cafés, hotéis, etc.). Contém também uma boa Introdução e a republicação de um texto de interessante sobre Lisboa que Eça publicou, ainda jovem, na "Gazeta de Portugal".
Trata-se de uma obra interessante. No entanto, para fotos antigas inéditas da cidade, associadas a uma investigação profunda e bem documentada sobre os locais, edifícios ou negócios, recomendo dois blogues extraordinários: Restos de Coleção e Lisboa de Antigamente.

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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Carnaval no fogo by Ruy Castro

Carnaval no fogoCarnaval no fogo by Ruy Castro
My rating: 4 of 5 stars

A escrita de Ruy Castro é descontraída e calorosa, tal como o Rio, e, tanto ou mais do que as histórias sobre a história, sobre os cariocas, sobre a "garota de Ipanema" ou sobre a cidade, as suas praças, jardins e bairros, é ela própria um retrato apaixonado da "cidade maravilhosa".

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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Os Gémeos de Black Hill by Bruce Chatwin

Os Gémeos de Black HillOs Gémeos de Black Hill by Bruce Chatwin
My rating: 4 of 5 stars

A vida de dois gémeos inseparáveis e idênticos em quase tudo, exceto nalguns aspetos da personalidade (um extrovertido, com vontade de namorar e casar, outro introvertido, quase com medo das mulheres), que vivem na fronteira entre a Inglaterra e o País de Gales.

Mais do que a história dos gémeos, o que é mais interessante neste livro é a escrita lisa e enxuta de Bruce Chatwin, interessada só nos factos, com uma frieza quase científica que apenas se deixa levar pela emoção já quase no final, com a prenda dos 80 anos que o sobrinho-neto engendra para os gémeos. Curiosamente (ou propositadamente), é a ausência de emoção ao longo do texto que faz com que a sua aparição inesperada quase no final tenha um efeito mais marcante, como se nos fosse dado a assistir a uma enorme explosão de fogo de artifício inesperada e bela.

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domingo, 19 de agosto de 2018

Um Diário Russo by John Steinbeck

Um Diário RussoUm Diário Russo by John Steinbeck
My rating: 4 of 5 stars

Logo no pós-guerra, John Steinbeck e Robert Capa conseguem autorização para visitar a União Soviética e, surpreendentemente, ao ficarem sob o patrocínio da Liga dos Escritores e não da dos Jornalistas, deixam-nos sair de Moscovo e visitar outras regiões. Nem um nem outro queriam discutir a política ou as tensões que existiam a nível militar e geo-estratégico entre as duas potências rivais. Queriam sim saber como era o povo, como vivia, o que pensava, fotografá-lo e escrever sobre ele.

Encontram cidades ainda em ruínas, mas um povo determinado em reconstruir e refazer as suas vidas. E descobrem que, sendo gigantesca, a federação soviética é um mosaico de gentes, de temperamentos (mais sombrios e distantes em Moscovo, mais alegres e calorosos na Geórgia) e de geografias e climas (continental em Moscovo e tropical na costa do Mar Negro).

É curioso verificar que Steinbeck parece confundir Rússia com União Soviética. Com efeito, mesmo o título do livro deveria ser "Um Diário Soviético", uma vez que talvez metade do mesmo seja dedicado à descrição das visitas à Ucrânia e à Geórgia. E também é curioso verificar que algumas das suas experiências parecem aquelas visitas programadas, com objetivos propagandistas, que se faziam através da Associação de Amizade Portugal-União Soviética, onde os visitantes eram levados a escolas ou fábricas modelo, em nada representativas da vida da generalidade dos cidadãos. Steinbeck e Capa andaram sempre acompanhados por um "tradutor oficial" nas suas visitas. Por exemplo, quando viam as prateleiras das lojas vazias e as longas filas que se formavam e que logo esgotavam qualquer que fosse o produto que chegava ao estabelecimento, logo lhes explicavam que era o resultado da destruição das fábricas durante a guerra e que um futuro radioso e de abundância esperava os povos soviéticos. Tal não se veio a confirmar, infelizmente, como todos sabemos. Mas Steinbeck parece perceber que as coisas não são bem como lhas apresentam, e vai-nos avisando frequentemente que só escreve aquilo que vê e que lhe contam.

O livro é muito interessante e lê-se num fôlego, mesmo se algumas passagens são excessivamente diarísticas ("fomos para o hotel", "viemos do aeroporto", "almoçámos bem",...). As fotos de Robert Capa enriquecem a obra, apesar das restrições e da censura que as autoridades soviéticas lhe impuseram. Mas é a escrita de Steinbeck que é central, sobretudo quando Steinbeck aplica o seu apurado sentido de humor e a sua penetrante ironia, por vezes em relação a si próprio e a Robert Capa.

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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Retrato de uma Família Portuguesa by Miguel Rovisco

Retrato de uma Família PortuguesaRetrato de uma Família Portuguesa by Miguel Rovisco


As tropas francesas estão prestes a entrar em Lisboa, em novembro de 1807, com o general Junot ao comando. O Tejo está repleto de navios, que embarcam apressadamente a família real e a corte que a acompanha na fuga para o Brasil. A cidade está em grande agitação, todos correndo, todos tentando lugar nos navios que partem, para si e para os seus pertences. Na casa já quase vazia de uma família (burguesa) portuguesa, nesta hora da verdade, emergem as verdades escondidas, as paixões inflamadas, as invejas, a coragem e a cobardia.

Um excelente retrato de um certo Portugal, talvez um pouco influenciado pelo clima de pessimismo e falta de amor-próprio da época em que foi escrito, que nos deixa um autor tão promissor que decidiu partir tão cedo, aos 27 anos.

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Tempo de silêncio by Patrick Leigh Fermor

Tempo de silêncioTempo de silêncio by Patrick Leigh Fermor
My rating: 4 of 5 stars

Patrick Leigh Fermor, numa daquelas fases de bloqueio mental, em que não consegue escrever, decide passar umas semanas de "desintoxicação" no convento da abadia beneditina de Saint Wandrille. Nos primeiros dias, na sua cela, sente-se deprimido e angustiado, com o isolamento, a falta de distrações, a vida rigorosa e austera, as regras bem definidas que mesmo os visitantes devem cumprir. Mas depois começa a dormir bem e a acordar cheio de energia. E começa a sentir-se livre das responsabilidades do dia-a-dia, dos compromissos sociais, dos pensamentos e cogitações que se sucediam antes, ininterruptamente, na sua cabeça. E começa a apreciar a calma e boa educação dos monges, a beleza dos bosques que rodeiam o mosteiro, e o silêncio, que só é interrompido pelos sons da Natureza. E começa a escrever, de novo, e com prazer! E tão simples e óbvio parece tudo, que nos dá vontade de experimentar também, de entrar, por uns tempos, para um convento beneditino ou budista...

Outro dos motivos de interesse do livro é a resposta que o autor nos dá para a pergunta que se nos coloca a todos: o que levará estes homens e mulheres a aceitarem uma vida dura de oração e trabalho e isolamento, abdicando dos "prazeres" da vida, do amor, do casamento e do sexo? Se os beneditinos levam uma vida rigorosa, os trapistas, que o autor visita a seguir, são ainda mais "radicais" e despojados, mas ambos o fazem pela mesma razão que, obviamente, não irei aqui revelar. É que vale mesmo a pena ler o livro!


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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O Capitão Nemo e Eu: crónica das horas aparentes by Álvaro Guerra

O Capitão Nemo e Eu: crónica das horas aparentesO Capitão Nemo e Eu: crónica das horas aparentes by Álvaro Guerra
My rating: 2 of 5 stars

Um livro de memórias de guerra, contado a partir do que parece ser o despertar de uma anestesia, num hospital, depois de uma intervenção cirúrgica. Parece escrito como se fosse um fluxo de consciência, desordenado, fragmentário, por vezes poético, por vezes incoerente.

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A Missa do Galo by Paul Bowles

A Missa do GaloA Missa do Galo by Paul Bowles
My rating: 4 of 5 stars

Pequenos contos sobre episódios, quase todo sobre a vida de ocidentais em Marrocos, quase todos muito interessantes e curiosos, e com tão fino sentido de observação que parecem cenas vividas pelo próprio Bowles.

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quinta-feira, 12 de julho de 2018

Um Jeep em Segunda Mão by Fernando Dacosta

Um Jeep em Segunda Mão; A SúplicaUm Jeep em Segunda Mão; A Súplica by Fernando Dacosta
My rating: 4 of 5 stars

Uma edição que junta três guiões cinematográficos de Fernando Dacosta: "Um Jeep em Segunda Mão", "A Súplica" e "Um Suicídio sem Importância".

Das três, a peça de maior fôlego é a que dá o título à coletânea. Quatro ex-soldados da guerra colonial juntam-se numa lugarejo deserto (presumivelmente no Alentejo) e relembram as suas experiências de África, que os uniram numa forte amizade, tanto mais valorizada quanto mais as suas vidas pessoais na atualidade são praticamente um desastre. Com o decurso da noite, e o aumento do nível de álcool e de "erva" no corpo, a verdade mistura-se com as memórias, e os quatro são transportados ao passado, num sonho de emoções e ação que terá consequências desastrosas.
A transição do momento presente para o sonho, para o reviver do passado, é tratado magistralmente pelo autor, e só por isso já mereceria a leitura da peça. Mas também a construção dos personagens merece elogios. São todos personagens muito credíveis (um mais rico não exibicionista, um homem sisudo e marcado pela vida, um homossexual que faz travesti para ganhar a vida, um otimista e falador, apesar de ter perdido uma perna na guerra), tal como é credível a relação forte entre os quatro personagens, sem resquícios de classismo entre ricos e pobres, ou de moralismo contra o homossexual. Trata-se de uma relação que foi solidificada na guerra, ou que só uma guerra, ou uma provação comum muito forte conseguiria forjar. Muito bem, portanto, este "Jipe em Segunda Mão".

Já as outras duas são peças de menor dimensão, sendo a primeira, "A Súplica", um monólogo em que uma mulher suplica à sogra e ao filho que perdoem o marido, que se assumiu como realmente era, depois de lhes ter escondido algo (presumivelmente a sua homossexualidade) durante toda a vida. O importante é amar, diz a mulher, não importa a quem. Finalmente, a terceira peça, "Um Suicídio sem Importância", é um texto curto sobre o controlo dos media pelo poder político.


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terça-feira, 10 de julho de 2018

Orfeu da Conceição by Vinicius de Moraes

Orfeu da ConceiçãoOrfeu da Conceição by Vinicius de Moraes
My rating: 3 of 5 stars

O mito de Orfeu e Euridice transportado por Vinicius de Moraes para um morro de favelas do Rio de Janeiro, apenas com personagens negros. Como não podia deixar de ser, os diálogos são poéticos e musicais. As notas de cena são muito extensas, com música para violão e samba, ruídos de rua e da natureza, amanhecer coloridos e noites escuras... Foi levado à cena uma vez, em 1956, a custas do autor, com cenários de Oscar Niemeyer e música de António Carlos Jobim. Deve ter sido um espetáculo extraordinário! Será que fizerem alguma gravação?

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O Vice-Rei de Ajudá by Bruce Chatwin

O Vice-Rei de AjudáO Vice-Rei de Ajudá by Bruce Chatwin
My rating: 4 of 5 stars

A biografia romanceada de Francisco Félix de Souza (no livro Francisco Manoel da Silva) um influente escrivão da Feitoria de Ajudá que deixou uma prole imensa.

A prosa de Chatwin é lisa e concentrada e deixa-nos um sabor a pouco. Gostaríamos de poder saber mais e em mais detalhe sobre a vida daquela gente e sobre a sua época.

Apesar de conseguir distanciar-se sobriamente, relatando factos e evitando ser moralista ou faccioso, ao lermos "O Vice-Rei de Ajudá" não podemos deixar de pensar que nós, portugueses, continuamos a varrer para debaixo do tapete essa passagem importante da história de Portugal, que tanto nos envergonha, a do tráfego de escravos. Escandalizamo-nos com o holocausto nazi, com as limpezas étnicas em alguns países africanos, com o radicalismo religioso islâmico, com o apartheid na África do Sul, mas nunca, como diz Miguel Vale de Almeida, fomos capazes de fazer um esforço de Verdade e Reconciliação, nem, como diz também Vale de Almeida, de reconhecer que, apesar de afirmarmos e (pior!) pensarmos o contrário, somos uma sociedade profundamente racista.

Nota: vale a pena ouvir a entrevista de Miguel Vale de Almeida: "Ninguém imagina (de verdade) um português negro"

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No Coração de Bornéu by Redmond O'Hanlon

No Coração de BornéuNo Coração de Bornéu by Redmond O'Hanlon
My rating: 4 of 5 stars

Uma equipa de exploradores inesperada, constituída por um poeta laureado (James Fenton) e um especialista em literatura inglesa do século XIX (Redmond O'Hanlon, o autor), partem para os confins da selva inexplorada à procura do elusivo rinoceronte do Bornéu. Vão numa canoa, guiada por três homens das tribos iban, através de rápidos cada vez mais difíceis de ultrapassar. Mas são dois "sportmen" ingleses, que encaram fleumaticamente todas as contrariedades com bom-humor e sem lamentações. Apesar dos desafios que têm pela frente, serpentes venenosas, picadas dolorosas de formigas, possibilidade de inundações rápidas ou mesmo de se depararem com alguma tribo perdida dos temíveis canibais que habitavam a zona, James segue tranquilamente na canoa lendo poesia clássica e Redmond tem sempre capacidade de se rir das encrencas em que se vê metido.

Mas o seu deslumbramento pelas maravilhas que encontram na floresta virgem é contagioso, as nuvens de borboletas que os cobrem em busca de se alimentarem delicadamente da sua transpiração, o voo dos casais de calaus por entre as copas das árvores, os ruídos e as cores do despertar da vida a cada manhã. É com o coração apertado que lemos a descrição do último olhar apressado do autor ao reduto mais longinguo e virgem onde chegou e de onde tem de fugir apressadamente devido à subida rápida das águas do rio. É como a lágrima que o rei mouro deixou escorrer pela face quando, do alto da estrada que o levará a África, olha pela última vez para a sua amada Alhambra, que deixa para trás, depois de derrotado pelos reis católicos.

E esse mundo selvagem e belo que O'Hanlon visitou em 1983 já desapareceu. Nas fotos de satélite das aplicações de mapas da Google e da Microsoft vêm-se hoje estradas que penetram até às zonas mais isoladas e zonas de exploração madeireira e clareiras de árvores cortadas na floresta e barragens. Os delicados ecossistemas que tanto maravilharam o autor e nos maravilharam a nós desapareceram, talvez para sempre.

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