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A maioria dos caudalosos rios que nascem nas vertentes norte das poderosas cadeias montanhosas do Hindu Kush e do Pamir, os Himalaias ocidentais, não chegam a desaguar no mar, esvaindo-se em grandes deltas nas areias dos desertos de Karakum e de Taklamakan. Nestes deltas, existem, desde tempos remotos, riquíssimas cidades-oásis, pontos cruciais da Rota das Sedas, como Merv, Bukhara, Samarcanda ou Kashgar. Não muito longe, fica o igualmente isolado e fértil vale de Fergana, onde nasceu Babur, o mítico fundador do que viria a ser o riquíssimo, culto e tolerante império mogol da Índia.
Sentindo-se asfixiar numa Europa mergulhada em grande desordem, acabada de sair da I Grande Guerra, com a Grande Depressão no seu máximo furor, a ascensão de Hitler à Chancelaria cavalgando os seus discursos histéricos e inflamados, a União Soviética fortalecida sob a mão de ferro de Estaline e o Império Britânico em pleno declínio, vergado aos protestos pacíficos de Gandhi, mas mantendo teimosamente a rígida moral vitoriana que condenara Oscar Wilde à prisão, Robert Byron sonha refugiar-se no canto mais remoto da Terra, numa destas cidades-oásis da Ásia Central, que ficam para lá do rio Oxus, a Transoxiana!
Apesar dos enormes desafios burocráticos e financeiros, Byron consegue aproveitar um momento único na História, quando o equilíbrio de poderes entre os impérios soviético e britânico possibilita o renascimento da Pérsia e do Afeganistão como países independentes, estados-tampão que separam geograficamente as duas grandes potências. É por esse corredor no espaço e no tempo que Byron parte na companhia do seu amigo Christopher Sykes.
Veneza, Chipre, os lugares sagrados de Jerusalém, Bagdade, Teerão, não são mais que apontamentos de viagem, etapas de um objetivo maior. Só em Herat, a primeira grande cidade para lá da fronteira do Irão, o seu ânimo espevita. Rapidamente se encaminha para o ansiado Turquestão, mas as primeiras neves do inverno obrigam-no a regressar a Herat, depois de ficar retido nas montanhas por alguns dias, sobrevivendo à disenteria e às noites geladas abrigado no corpo quente de Nur Mohammad, um soldado de um regimento afegão com quem se cruzara.
Frustrado, regressa à Pérsia para passar o inverno e visita as cidades monumentais do sul: Isfahad, Shiraz, Firuzabad, as ruínas de Persépolis, Yazd, Kerman e Mahan. Com a chegada da primavera, regressa a Herat, e desta vez o passe de montanha de Sauzak, a 2.400 metros de altitude, não o detém. Finalmente perto do seu destino, tudo se transforma para Robert Byron, as colinas são mais verdejantes, as flores, mais coloridas, o ar, mais ameno e até se “sente a presença do rio [Oxus] a cinquenta milhas de distância como se sente a presença do mar antes de o ver.”
Mas o mesmo equilíbrio político que lhe permitira chegar até ali, impede-o de ir mais longe. Em Mazar-i-Sharif, não consegue autorização do Governador para se aproximar do Oxus por deferência aos soviéticos, que não toleram ingleses a menos de 50 km das suas fronteiras. Impedido de realizar o seu sonho, frustrado, empreende um regresso rápido. Já nada o entusiasma. Os Budas de Bamian “não têm qualquer valor artístico”, Kabul é uma imitação de Deli e só a capital do velho império dos Ghaznávida o aquece brevemente. De regresso a casa, no comboio de Londres para Savernake, escreve: “Comecei a sentir-me entontecido, atordoado pela perspetiva de estar a chegar ao fim”.
The Road to Oxiana é o diário desta viagem incompleta em direção a um paraíso perdido. É um travelogue cheio de humor, inteligência, contemplando a história, a arquitetura, a paisagem, os povos, refletindo a alma do autor em perseguição de um sonho intangível. Mas não é essa a essência do viajar? A vontade irreprimível de vasculhar o mundo ao encontro dos nossos sonhos?
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