domingo, 2 de agosto de 2015

Mataram a Cotovia by Harper Lee

Mataram a Cotovia Mataram a Cotovia by Harper Lee
My rating: 5 of 5 stars

Scout, uma maria-rapaz de nove anos, o seu irmão Jem, quatro anos mais velho, e um amigo Dill, vivem as tradicionais aventuras de verão numa pequena cidade do sul americano, fazendo a sua dose de traquinices. São miúdos inteligentes a quem o pai, o advogado Atticus, trata com amor e respeito. Mas tudo irá mudar quando Tom Robinson é acusado de violar a filha de Bob Ewell e Atticus decide corajosamente enfrentar os preconceitos racistas do início do século XX num estado sulista para defender um negro contra um branco.

A história é contada por Scout, na primeira pessoa, como se estivesse a relembrar o que se passou naqueles anos difíceis. É uma narrativa carregada de inocência, de alguém que observa sem compreender completamente o que se está a passar (a discriminação racial, os hábitos sociais rídiculos,...) e que, sendo curiosa e arguta, faz perguntas e observações certeiras, por vezes cheias de ironia não intencional.

Apesar de nem sempre os "bons" ganharem e de haver dor, injustiça e maldade, todos os personagens, exceto os Ewells, têm uma faceta humana com a qual empatizamos imediatamente e que nos enternece. Mesmo a tia Alexandra ou os Cunninghams acabam por ser de certa forma simpáticos (são, teoricamente, dos mais perversos para as crianças). Aliás, ternura é, provavelmente, a palavra que melhor descreve a atmosfera deste romance, uma ternura que nos faz sentir protegidos ao lê-lo apesar da crueza dos eventos. Uma ternura que terá que ver com a nostalgia que todos sentimos dos "bons-tempos" da infância? Talvez...

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segunda-feira, 20 de julho de 2015

Amor entre Samurais by Ihara Saikaku

Amor entre SamuraisAmor entre Samurais by Ihara Saikaku
My rating: 4 of 5 stars

Ihara Saikaku (1642-1693), foi um romancista e poeta japonês, considerado um dos pais do conto e do romance no Japão. Com os seus livros da série "Mundo Flutuante", revolucionou a prosa japonesa, abordando temas populares e quotidianos, por vezes licenciosos e proibidos, numa linguagem simples e coloquial. Escrevia para vender e ganhar dinheiro, mais que para permitir a reflexão do leitor ou para o informar. As suas obras tiveram enorme sucesso comercial durante a sua vida, mas acabaram por ser esquecidas até ao final do século XIX, quando finalmente recomeçaram a despertar o interesse dos estudiosos. No entanto, devido ao seu conteúdo erótico, muitos contos e novelas continuaram censurados pelos governos militares que dominaram o Japão no início do século XX, e só após a II Guerra Mundial foram publicadas as suas Obras Completas. Yukio Mishima declarou uma vez que o seu livro, Confissões de uma Máscara, era a primeira obra importante a abordar o tema da homossexualidade no Japão depois de The Great Mirror of Male Love, de Saikaku.

Comrade Loves of the Samurai é uma seleção de contos de Saikaku que aborda o tema do amor entre samurais, traduzidos para o inglês por E. Powys Mathers, em 1928, a partir da tradução francesa por Ken Sato. São pequenas histórias ternas e cândidas de paixões devastadoras entre samurais, que terminam frequentemente em haraquiri, de acordo com o código de honra dos tradicionais guerreiros japoneses. O amor retratado tem, surpreendentemente, dada a distância geográfica e temporal entre as duas culturas, muitas semelhanças com o amor grego, surgindo frequentemente a figura tutelar do homem mais velho, que ama, aconselha e educa o jovem por cuja beleza se apaixona. Surpreendente é, também, a descoberta de que por detrás da frieza marcial e assassina que nos habituámos a associar aos míticos samurais japoneses existiam, na verdade, relações homossexuais de amor e ternura inesperadas.

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O mapa e o território by Michel Houellebecq

O mapa e o territórioO mapa e o território by Michel Houellebecq
My rating: 4 of 5 stars

Esta é a vida de Jed Martin que, como por acaso, fez fama e fortuna no mundo da arte. Jed não era ambicioso, nem sabia muito bem o que queria da vida, mas era obcecado e perfecionista: primeiro, decidiu fazer um inventário fotográfico de todas as ferramentas e utensílios do homem, chaves de parafusos, garfos e colheres, mesas e cadeiras,... depois, subitamente, apaixonou-se pelos mapas de estradas da Michelin ("o mapa é mais interessante que o território"), e passou dez anos a fotografá-los em perspetiva, iluminados lateralmente, parcialmente desfocados,... em seguida fechou-se anos a pintar todas as artes e ofícios (o talhante de carne de cavalo, o empresário no seu último dia de escritório, Bill Gates e Steve Jobs conversando,...) até que, já podre de rico, regressou à aldeia dos avós e se fechou numa propriedade cercada por uma rede de 3 metros de altura e encimada por um cabo de segurança elétrico.

Parece demasiado simples e extravagante, mas a vida de Jed Martin não é mais que um pretexto que permite a Michel Houllebecq discorrer de forma brilhante, mas despretensiosa, entre outras coisas, sobre fotografia, sobre arquitetura (a desumanização de Le Corbusier e Van der Rohe vs o movimento Arts & Crafts inspirado por Charles Fourier e William Morris), sobre crítica de arte (aqui, cheio de ironia), sobre a morte (a vida, o suicídio, a eutanásia) e sobre a solidão. E sim, muitos dos personagens são pessoas verdadeiras, com a ficção a enredar-se na realidade, ao ponto de Michel Houllebecq ser ele próprio um dos personagens principais do seu próprio livro, o personagem que será central no capítulo "policial" deste romance! Sim, há mistura de géneros, e um capítulo inesperadamente policial, com um assassínio misterioso e um comissário de polícia a investigar! Será Jed Martin o assassino?

Parecia um enredo simples, não parecia? Mas não é... é um livro inesperado, desconcertante por vezes, mas muito bem escrito, muito interessante e enriquecedor.




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domingo, 28 de junho de 2015

A Filosofia na Alcova by Marquis de Sade

A Filosofia na AlcovaA Filosofia na Alcova by Marquis de Sade
My rating: 3 of 5 stars

Madame de Saint-Ange convoca Dolmancé e o seu irmão, o Cavaleiro, para educar na teoria e na prática da libertinagem a jovem Eugénie, uma virgem encerrada que se encontrava encerrada num convento pela mãe, uma puritana que Eugénie odeia, mas que é incentivada pelo pai, também ele um libertino, a aprender as coisas da vida.

O texto consiste num conjunto extenso de diálogos entre os vários personagens, intercalado por um longo discurso.

Apesar das cenas explícitas de sexo (pornográficas), em que as posições sexuais parecem quase acrobáticas e os intervenientes são autênticos superheróis do sexo, virtualmente inexauríveis e inesgotáveis, esta obra apresenta-nos a visão libertina do século XVIII sobre a ortodoxia sexual (Dolmancé é um sodomita bissexual que tem mais prazer com rapazes), fazendo a apologia da liberdade sem limites (a crueldade e o crime são aceites e defendidos) e questionando a moral e as virtudes (com ataques cerrados à Igreja e à religião), por vezes com laivos de grande modernidade ("Que lhe importa que se extinga ou se aniquile a raça dos homens na Terra! Ela ri do nosso orgulho de nos convencermos de que tudo seacabaria se esse infortúnio acontecesse! Mas ela nem sequer daria por isso!")

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Vícios de amor by Norberto Morais

Vícios de amorVícios de amor by Norberto Morais
My rating: 3 of 5 stars

Vícios é uma terra perdida, longe de tudo, que tem uma única praça com uma enorme árvore no meio, onde se encontra pendurado, de cabeça para baixo, um homem a quem ninguém liga, uma varanda onde está permanentemente um velho louco a observar tudo, um padre e a sua igreja, o inevitável bordel no andar de cima do único café, e um ser, meio cabrito, meio rapaz, entre outros personagens e histórias misteriosas por contar.

Este é o primeiro livro de Norberto Morais, antes do fabuloso O Pecado de Porto Negro. Tal como neste último, Norberto Morais transporta-nos para um ambiente mágico, que imaginamos algures na América do Sul, mas, ao contrário dele, dispersa-se num incontável número de personagens, com uma estrutura narrativa complexa que ziguezagueia no tempo e onde as mortes e os partos se sucedem. Um livro que daria material para muitos livros!

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