terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Carnaval no fogo by Ruy Castro

Carnaval no fogoCarnaval no fogo by Ruy Castro
My rating: 4 of 5 stars

A escrita de Ruy Castro é descontraída e calorosa, tal como o Rio, e, tanto ou mais do que as histórias sobre a história, sobre os cariocas, sobre a "garota de Ipanema" ou sobre a cidade, as suas praças, jardins e bairros, é ela própria um retrato apaixonado da "cidade maravilhosa".

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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Os Gémeos de Black Hill by Bruce Chatwin

Os Gémeos de Black HillOs Gémeos de Black Hill by Bruce Chatwin
My rating: 4 of 5 stars

A vida de dois gémeos inseparáveis e idênticos em quase tudo, exceto nalguns aspetos da personalidade (um extrovertido, com vontade de namorar e casar, outro introvertido, quase com medo das mulheres), que vivem na fronteira entre a Inglaterra e o País de Gales.

Mais do que a história dos gémeos, o que é mais interessante neste livro é a escrita lisa e enxuta de Bruce Chatwin, interessada só nos factos, com uma frieza quase científica que apenas se deixa levar pela emoção já quase no final, com a prenda dos 80 anos que o sobrinho-neto engendra para os gémeos. Curiosamente (ou propositadamente), é a ausência de emoção ao longo do texto que faz com que a sua aparição inesperada quase no final tenha um efeito mais marcante, como se nos fosse dado a assistir a uma enorme explosão de fogo de artifício inesperada e bela.

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domingo, 19 de agosto de 2018

Um Diário Russo by John Steinbeck

Um Diário RussoUm Diário Russo by John Steinbeck
My rating: 4 of 5 stars

Logo no pós-guerra, John Steinbeck e Robert Capa conseguem autorização para visitar a União Soviética e, surpreendentemente, ao ficarem sob o patrocínio da Liga dos Escritores e não da dos Jornalistas, deixam-nos sair de Moscovo e visitar outras regiões. Nem um nem outro queriam discutir a política ou as tensões que existiam a nível militar e geo-estratégico entre as duas potências rivais. Queriam sim saber como era o povo, como vivia, o que pensava, fotografá-lo e escrever sobre ele.

Encontram cidades ainda em ruínas, mas um povo determinado em reconstruir e refazer as suas vidas. E descobrem que, sendo gigantesca, a federação soviética é um mosaico de gentes, de temperamentos (mais sombrios e distantes em Moscovo, mais alegres e calorosos na Geórgia) e de geografias e climas (continental em Moscovo e tropical na costa do Mar Negro).

É curioso verificar que Steinbeck parece confundir Rússia com União Soviética. Com efeito, mesmo o título do livro deveria ser "Um Diário Soviético", uma vez que talvez metade do mesmo seja dedicado à descrição das visitas à Ucrânia e à Geórgia. E também é curioso verificar que algumas das suas experiências parecem aquelas visitas programadas, com objetivos propagandistas, que se faziam através da Associação de Amizade Portugal-União Soviética, onde os visitantes eram levados a escolas ou fábricas modelo, em nada representativas da vida da generalidade dos cidadãos. Steinbeck e Capa andaram sempre acompanhados por um "tradutor oficial" nas suas visitas. Por exemplo, quando viam as prateleiras das lojas vazias e as longas filas que se formavam e que logo esgotavam qualquer que fosse o produto que chegava ao estabelecimento, logo lhes explicavam que era o resultado da destruição das fábricas durante a guerra e que um futuro radioso e de abundância esperava os povos soviéticos. Tal não se veio a confirmar, infelizmente, como todos sabemos. Mas Steinbeck parece perceber que as coisas não são bem como lhas apresentam, e vai-nos avisando frequentemente que só escreve aquilo que vê e que lhe contam.

O livro é muito interessante e lê-se num fôlego, mesmo se algumas passagens são excessivamente diarísticas ("fomos para o hotel", "viemos do aeroporto", "almoçámos bem",...). As fotos de Robert Capa enriquecem a obra, apesar das restrições e da censura que as autoridades soviéticas lhe impuseram. Mas é a escrita de Steinbeck que é central, sobretudo quando Steinbeck aplica o seu apurado sentido de humor e a sua penetrante ironia, por vezes em relação a si próprio e a Robert Capa.

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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Retrato de uma Família Portuguesa by Miguel Rovisco

Retrato de uma Família PortuguesaRetrato de uma Família Portuguesa by Miguel Rovisco


As tropas francesas estão prestes a entrar em Lisboa, em novembro de 1807, com o general Junot ao comando. O Tejo está repleto de navios, que embarcam apressadamente a família real e a corte que a acompanha na fuga para o Brasil. A cidade está em grande agitação, todos correndo, todos tentando lugar nos navios que partem, para si e para os seus pertences. Na casa já quase vazia de uma família (burguesa) portuguesa, nesta hora da verdade, emergem as verdades escondidas, as paixões inflamadas, as invejas, a coragem e a cobardia.

Um excelente retrato de um certo Portugal, talvez um pouco influenciado pelo clima de pessimismo e falta de amor-próprio da época em que foi escrito, que nos deixa um autor tão promissor que decidiu partir tão cedo, aos 27 anos.

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Tempo de silêncio by Patrick Leigh Fermor

Tempo de silêncioTempo de silêncio by Patrick Leigh Fermor
My rating: 4 of 5 stars

Patrick Leigh Fermor, numa daquelas fases de bloqueio mental, em que não consegue escrever, decide passar umas semanas de "desintoxicação" no convento da abadia beneditina de Saint Wandrille. Nos primeiros dias, na sua cela, sente-se deprimido e angustiado, com o isolamento, a falta de distrações, a vida rigorosa e austera, as regras bem definidas que mesmo os visitantes devem cumprir. Mas depois começa a dormir bem e a acordar cheio de energia. E começa a sentir-se livre das responsabilidades do dia-a-dia, dos compromissos sociais, dos pensamentos e cogitações que se sucediam antes, ininterruptamente, na sua cabeça. E começa a apreciar a calma e boa educação dos monges, a beleza dos bosques que rodeiam o mosteiro, e o silêncio, que só é interrompido pelos sons da Natureza. E começa a escrever, de novo, e com prazer! E tão simples e óbvio parece tudo, que nos dá vontade de experimentar também, de entrar, por uns tempos, para um convento beneditino ou budista...

Outro dos motivos de interesse do livro é a resposta que o autor nos dá para a pergunta que se nos coloca a todos: o que levará estes homens e mulheres a aceitarem uma vida dura de oração e trabalho e isolamento, abdicando dos "prazeres" da vida, do amor, do casamento e do sexo? Se os beneditinos levam uma vida rigorosa, os trapistas, que o autor visita a seguir, são ainda mais "radicais" e despojados, mas ambos o fazem pela mesma razão que, obviamente, não irei aqui revelar. É que vale mesmo a pena ler o livro!


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