segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Retrato de uma Família Portuguesa by Miguel Rovisco

Retrato de uma Família PortuguesaRetrato de uma Família Portuguesa by Miguel Rovisco


As tropas francesas estão prestes a entrar em Lisboa, em novembro de 1807, com o general Junot ao comando. O Tejo está repleto de navios, que embarcam apressadamente a família real e a corte que a acompanha na fuga para o Brasil. A cidade está em grande agitação, todos correndo, todos tentando lugar nos navios que partem, para si e para os seus pertences. Na casa já quase vazia de uma família (burguesa) portuguesa, nesta hora da verdade, emergem as verdades escondidas, as paixões inflamadas, as invejas, a coragem e a cobardia.

Um excelente retrato de um certo Portugal, talvez um pouco influenciado pelo clima de pessimismo e falta de amor-próprio da época em que foi escrito, que nos deixa um autor tão promissor que decidiu partir tão cedo, aos 27 anos.

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Tempo de silêncio by Patrick Leigh Fermor

Tempo de silêncioTempo de silêncio by Patrick Leigh Fermor
My rating: 4 of 5 stars

Patrick Leigh Fermor, numa daquelas fases de bloqueio mental, em que não consegue escrever, decide passar umas semanas de "desintoxicação" no convento da abadia beneditina de Saint Wandrille. Nos primeiros dias, na sua cela, sente-se deprimido e angustiado, com o isolamento, a falta de distrações, a vida rigorosa e austera, as regras bem definidas que mesmo os visitantes devem cumprir. Mas depois começa a dormir bem e a acordar cheio de energia. E começa a sentir-se livre das responsabilidades do dia-a-dia, dos compromissos sociais, dos pensamentos e cogitações que se sucediam antes, ininterruptamente, na sua cabeça. E começa a apreciar a calma e boa educação dos monges, a beleza dos bosques que rodeiam o mosteiro, e o silêncio, que só é interrompido pelos sons da Natureza. E começa a escrever, de novo, e com prazer! E tão simples e óbvio parece tudo, que nos dá vontade de experimentar também, de entrar, por uns tempos, para um convento beneditino ou budista...

Outro dos motivos de interesse do livro é a resposta que o autor nos dá para a pergunta que se nos coloca a todos: o que levará estes homens e mulheres a aceitarem uma vida dura de oração e trabalho e isolamento, abdicando dos "prazeres" da vida, do amor, do casamento e do sexo? Se os beneditinos levam uma vida rigorosa, os trapistas, que o autor visita a seguir, são ainda mais "radicais" e despojados, mas ambos o fazem pela mesma razão que, obviamente, não irei aqui revelar. É que vale mesmo a pena ler o livro!


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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O Capitão Nemo e Eu: crónica das horas aparentes by Álvaro Guerra

O Capitão Nemo e Eu: crónica das horas aparentesO Capitão Nemo e Eu: crónica das horas aparentes by Álvaro Guerra
My rating: 2 of 5 stars

Um livro de memórias de guerra, contado a partir do que parece ser o despertar de uma anestesia, num hospital, depois de uma intervenção cirúrgica. Parece escrito como se fosse um fluxo de consciência, desordenado, fragmentário, por vezes poético, por vezes incoerente.

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A Missa do Galo by Paul Bowles

A Missa do GaloA Missa do Galo by Paul Bowles
My rating: 4 of 5 stars

Pequenos contos sobre episódios, quase todo sobre a vida de ocidentais em Marrocos, quase todos muito interessantes e curiosos, e com tão fino sentido de observação que parecem cenas vividas pelo próprio Bowles.

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quinta-feira, 12 de julho de 2018

Um Jeep em Segunda Mão by Fernando Dacosta

Um Jeep em Segunda Mão; A SúplicaUm Jeep em Segunda Mão; A Súplica by Fernando Dacosta
My rating: 4 of 5 stars

Uma edição que junta três guiões cinematográficos de Fernando Dacosta: "Um Jeep em Segunda Mão", "A Súplica" e "Um Suicídio sem Importância".

Das três, a peça de maior fôlego é a que dá o título à coletânea. Quatro ex-soldados da guerra colonial juntam-se numa lugarejo deserto (presumivelmente no Alentejo) e relembram as suas experiências de África, que os uniram numa forte amizade, tanto mais valorizada quanto mais as suas vidas pessoais na atualidade são praticamente um desastre. Com o decurso da noite, e o aumento do nível de álcool e de "erva" no corpo, a verdade mistura-se com as memórias, e os quatro são transportados ao passado, num sonho de emoções e ação que terá consequências desastrosas.
A transição do momento presente para o sonho, para o reviver do passado, é tratado magistralmente pelo autor, e só por isso já mereceria a leitura da peça. Mas também a construção dos personagens merece elogios. São todos personagens muito credíveis (um mais rico não exibicionista, um homem sisudo e marcado pela vida, um homossexual que faz travesti para ganhar a vida, um otimista e falador, apesar de ter perdido uma perna na guerra), tal como é credível a relação forte entre os quatro personagens, sem resquícios de classismo entre ricos e pobres, ou de moralismo contra o homossexual. Trata-se de uma relação que foi solidificada na guerra, ou que só uma guerra, ou uma provação comum muito forte conseguiria forjar. Muito bem, portanto, este "Jipe em Segunda Mão".

Já as outras duas são peças de menor dimensão, sendo a primeira, "A Súplica", um monólogo em que uma mulher suplica à sogra e ao filho que perdoem o marido, que se assumiu como realmente era, depois de lhes ter escondido algo (presumivelmente a sua homossexualidade) durante toda a vida. O importante é amar, diz a mulher, não importa a quem. Finalmente, a terceira peça, "Um Suicídio sem Importância", é um texto curto sobre o controlo dos media pelo poder político.


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