segunda-feira, 11 de julho de 2016

As Minhas Memórias by Olga de Moraes Sarmento

As Minhas Memórias As Minhas Memórias by Olga de Moraes Sarmento
My rating: 3 of 5 stars

Olga de Moraes Sarmento foi uma mulher emancipada, ainda que monárquica e católica, que viveu em Paris cerca de trinta anos. A razão do seu exílio voluntário foi "o meu eterno conflito com as convenções, com os preconceitos portugueses." A jovem viúva de vinte e três anos não voltou a casar, mas manteve profundas amizades femininas, cujos nomes estão ligados ao nascimento do feminismo e da cultura lésbica em França, como Renée Vivien, Lucie Delarue-Mardrus, Hélène de Zuylen, Colette, a Princesa Violette Murat e a Duquesa Élisabeth de Clermont-Tonnerre. Durante mais de trinta anos, Olga foi companheira da Baronesa Hélène de Zuylen de Nyevelt, née Rothschild, a quem salvou do Holocausto, levando-a para Lisboa e, posteriormente, para Nova Iorque. Olga dedicou-lhe o seu livro de memórias: "Em homenagem da minha ternura agradecida, da minha admiração sempre fiel, da minha saudade inconsolável, a Helena, ofereço estas páginas que são o pálido retrato da minha vida, essa vida em que ela foi, pela nobreza inigualável da sua alma, pela inteligência compreensiva da sua amizade, pela generosidade calorosa do seu coração, a grande luz maternal que soube iluminar e aquecer mais de trinta anos de uma dedicação perfeita."

Para Olga Moraes Sarmento, tudo é perfeito, lindo, emocionante; todos são inteligentes, afectuosos, cordiais. Até mesmo os seus inimigos de estimação, como os republicanos, são frequentemente descritos como respeitadores e educados. A escrita inflamada, delicodoce, adjetivada (de que a dedicatória é bom exemplo) mais não faz que ocultar sentimentos e fugir à confrontação de ideias, não revelando minimamente, por exemplo, a natureza da sua relação com Helena. Este foi um estilo de escrita largamente louvado à época, que, felizmente, não conseguiu resistir à passagem dos anos. Apesar disso, "As Minhas Memórias" são um documento interessante sobre a fase de transição da monarquia para a república, em Portugal, sobre o período entre guerras, em Paris, e sobre uma classe social muito aristocrata e um tanto preconceituosa, da viragem do século XIX para o XX, que, infelizmente, apesar de se encontrar atualmente bastante rarefeita, sobreviveu à voragem do tempo e ainda encontra eco, por exemplo, nas fúteis revistas da "socialite".

View all my reviews

domingo, 10 de julho de 2016

A Duração dos Crepúsculos by Filomena Marona Beja

A Duração dos Crepúsculos A Duração dos Crepúsculos by Filomena Marona Beja
My rating: 3 of 5 stars

Ruy Afonso, o narrador, retira-se, já velho, para a sua casa perdida em São Miguel, nos Açores, e recorda os anos que passou em Paris como distribuidor da VVR-Filmes, relembra as dificuldades que teve de ultrapassar durante a ocupação alemã da capital francesa, durante a II Grande Guerra, e os seus amores, primeiro por Valée e depois por Cristal.

Sua sócia na VVR era Gi, o "petit-nom" da escritora de livros infantis Vírginia de Castro e Almeida, para quem produziu dois filmes ruinosos financeiramente, "A Sereia de Pedra" e "Olhos de Alma". Com o aproximar da guerra, Gi refugiou-se na Casa do Pinhal, em Cascais, onde vive com Pam, uma artista plástica, a sua companheira.

O interesse de Gi pelos personagens históricos portugueses, sobre quem escreveu alguns livros por encomenda para a Secretaria Nacional da Propaganda, leva-a a estabelecer uma amizade com António, um estudioso de matemática, que lhe fala de Pedro Nunes, um dos pilares dos Descobrimentos Portugueses do século XVI, pelos vários problemas práticos de navegação que resolveu, respeitantes à correcção da rotas, à determinação da posição dos navios, à compensação dos desvios das agulhas magnéticas, que permitiram desenhar mapas mais precisos, garantindo a Portugal a liderança tecnológica e o domínio dos mares.

E são estes dois pontos os de maior interesse no romance: a biografia romanceada de uma portuguesa de grande valor, lésbica, mas há muito caída em esquecimento, e uma chamada de atenção para a vida e obra de Pedro Nunes, um cientista português de uma época em que a coincidiram em Portugal a coragem, a inteligência e a determinação. A escrita é escorreita, mas desnecessariamente complexa no que à estrutura diz respeito; é como se os parágrafos, depois de escritos, tivessem sido baralhados e posteriormente colocados no texto por uma ordem quase aleatória.

View all my reviews

Eugénia e Silvina by Agustina Bessa-Luís

Eugénia e Silvina Eugénia e Silvina by Agustina Bessa-Luís
My rating: 4 of 5 stars

Tudo se passa ao redor do solar da Malhada, nos arredores de Viseu, e dos seus proprietários. A baronesa Eugénia Silva Mendes, herdeira da Malhada e de uma fabulosa fortuna. A sua neta Eugénia Viseu, neta bastarda da baronesa, que se transforma numa elegante dama da sociedade parisiense, sempre acompanhada pelo galante tenente Freitas Barros, de quem se diz ser seu amante, e de uma dama de companhia, Maria Augusta, que talvez tivesse sido o que o tenente não foi. João Trindade, um homem do povo, que se apaixona por Eugénia e que, não podendo aspirar a casar com ela, faz um filho a uma das suas damas de companhia, após o que foge para São Tomé, onde enriquece mais como negreiro do que como fazendeiro de cacau. Silvina, a filha bastarda de João Trindade, que ele adopta quando regressa rico de São Tomé e com quem vai viver, diz-se que em relação incestuosa, na Malhada, que João Trindade compra e recupera da decadência em que caíra após a morte da sua inalcançável viscondessa Eugénia Viseu. Finalmente, Claudino, o marido contratado para Silvina, e Albina, a sua fidelíssima e amantíssima criada, a "Maria Augusta" de Silvina.

"A menina Elvirinha, filha dos caseiros da Malhada, era empregada de padaria, na Rua Nova, de Viseu. Levantava-se com as estrelas, calçava uns sapatos de presilha que lhe garantiam a condição urbana, e saía de casa; encurtava caminho pelo terreno chamado O lameiro, e entrava na estrada, perto da Poça das Feiticeiras. Desta vez teve um susto, mitigado pelo facto de o seu encontro arrepiante contar com a presença dum guarda de Ranados que ela conhecia. Dentro da água limosa e com pouca profundidade estava o corpo de um homem que ela achou ser um mendigo. O rosto, de tão maltratado, era irreconhecível." Era João Trindade.

Não, não vos estou a revelar o enredo do romance, pelo menos não mais que a autora o faz nas primeiras páginas. Com efeito, ao longo de quase 400 páginas, Agustina Bessa-Luís gira e volta a girar à volta dos mesmos lugares, dos mesmos personagens, dos mesmos acontecimentos. Mas não faz círculos, antes nos arrasta numa espiral, que nos aproxima cada vez mais, milimetricamente, de um desfecho que não chega a acontecer. Mas a escrita é tão bela, a condução do leitor tão delicada, que nos deixamos enredar e "entramos" na história, "conhecemos" os locais, "convivemos" com os personagens, que acabam por nos ser tão familiares que, quando viramos a última página do livro, imediatamente lhes sentimos a falta.

View all my reviews

quarta-feira, 6 de julho de 2016

The Road to Oxiana by Robert Byron

The Road to Oxiana: New edition linked and annotaded The Road to Oxiana: New edition linked and annotaded by Robert Byron
My rating: 5 of 5 stars

A maioria dos caudalosos rios que nascem nas vertentes norte das poderosas cadeias montanhosas do Hindu Kush e do Pamir, os Himalaias ocidentais, não chegam a desaguar no mar, esvaindo-se em grandes deltas nas areias dos desertos de Karakum e de Taklamakan. Nestes deltas, existem, desde tempos remotos, riquíssimas cidades-oásis, pontos cruciais da Rota das Sedas, como Merv, Bukhara, Samarcanda ou Kashgar. Não muito longe, fica o igualmente isolado e fértil vale de Fergana, onde nasceu Babur, o mítico fundador do que viria a ser o riquíssimo, culto e tolerante império mogol da Índia.

Sentindo-se asfixiar numa Europa mergulhada em grande desordem, acabada de sair da I Grande Guerra, com a Grande Depressão no seu máximo furor, a ascensão de Hitler à Chancelaria cavalgando os seus discursos histéricos e inflamados, a União Soviética fortalecida sob a mão de ferro de Estaline e o Império Britânico em pleno declínio, vergado aos protestos pacíficos de Gandhi, mas mantendo teimosamente a rígida moral vitoriana que condenara Oscar Wilde à prisão, Robert Byron sonha refugiar-se no canto mais remoto da Terra, numa destas cidades-oásis da Ásia Central, que ficam para lá do rio Oxus, a Transoxiana!

Apesar dos enormes desafios burocráticos e financeiros, Byron consegue aproveitar um momento único na História, quando o equilíbrio de poderes entre os impérios soviético e britânico possibilita o renascimento da Pérsia e do Afeganistão como países independentes, estados-tampão que separam geograficamente as duas grandes potências. É por esse corredor no espaço e no tempo que Byron parte na companhia do seu amigo Christopher Sykes.

Veneza, Chipre, os lugares sagrados de Jerusalém, Bagdade, Teerão, não são mais que apontamentos de viagem, etapas de um objetivo maior. Só em Herat, a primeira grande cidade para lá da fronteira do Irão, o seu ânimo espevita. Rapidamente se encaminha para o ansiado Turquestão, mas as primeiras neves do inverno obrigam-no a regressar a Herat, depois de ficar retido nas montanhas por alguns dias, sobrevivendo à disenteria e às noites geladas abrigado no corpo quente de Nur Mohammad, um soldado de um regimento afegão com quem se cruzara.

Frustrado, regressa à Pérsia para passar o inverno e visita as cidades monumentais do sul: Isfahad, Shiraz, Firuzabad, as ruínas de Persépolis, Yazd, Kerman e Mahan. Com a chegada da primavera, regressa a Herat, e desta vez o passe de montanha de Sauzak, a 2.400 metros de altitude, não o detém. Finalmente perto do seu destino, tudo se transforma para Robert Byron, as colinas são mais verdejantes, as flores, mais coloridas, o ar, mais ameno e até se “sente a presença do rio [Oxus] a cinquenta milhas de distância como se sente a presença do mar antes de o ver.”

Mas o mesmo equilíbrio político que lhe permitira chegar até ali, impede-o de ir mais longe. Em Mazar-i-Sharif, não consegue autorização do Governador para se aproximar do Oxus por deferência aos soviéticos, que não toleram ingleses a menos de 50 km das suas fronteiras. Impedido de realizar o seu sonho, frustrado, empreende um regresso rápido. Já nada o entusiasma. Os Budas de Bamian “não têm qualquer valor artístico”, Kabul é uma imitação de Deli e só a capital do velho império dos Ghaznávida o aquece brevemente. De regresso a casa, no comboio de Londres para Savernake, escreve: “Comecei a sentir-me entontecido, atordoado pela perspetiva de estar a chegar ao fim”.

The Road to Oxiana é o diário desta viagem incompleta em direção a um paraíso perdido. É um travelogue cheio de humor, inteligência, contemplando a história, a arquitetura, a paisagem, os povos, refletindo a alma do autor em perseguição de um sonho intangível. Mas não é essa a essência do viajar? A vontade irreprimível de vasculhar o mundo ao encontro dos nossos sonhos?

View all my reviews

terça-feira, 5 de julho de 2016

Bella Donna: Amor no Feminino by Fabiula Bortolozzo

Bella Donna: Amor no Feminino Bella Donna: Amor no Feminino by Fabiula Bortolozzo
My rating: 4 of 5 stars

Nos tempos da velha Republica dos Doges venezianos, Antonia, uma viúva aristocrata, decide passar o resto dos seus dias num convento da ilha de Murano após a morte do seu marido. Parte em busca de tranquilidade mas, ao invés, encontra emoção, dor e mistério.

Um romance histórico de amor entre duas mulheres que consegue escapar ao lugar-comum das paixões inflamadas, embalando-nos, com a sua escrita escorreita, para uma leitura compulsiva de um enredo quase policial, muito bem arquitectado e com um desfecho inesperado.

View all my reviews

terça-feira, 7 de junho de 2016

Todo Teu: Terça by Nuno Oskar

Todo Teu: Terça Todo Teu: Terça by Nuno Oskar
My rating: 4 of 5 stars

Terça-feira, 11 de junho. Depois de uma zanga monumental, Nuno e Duarte iniciam uma semana de trabalho, de costas viradas um para o outro. Mas há qualquer coisa em Nuno que atrai o Duarte, um misto de inocência perdida e irreverência que ele não encontra nos homens maduros que se submetem às suas ordens no Kheiron, o exclusivo clube privado lisboeta que frequenta. Nuno, por seu lado, sente-se magoado com Duarte, que foi insensível à sua experiência traumática com o primo, Pedro. Mas Nuno nunca conheceu um homem como Duarte e fica deslumbrado com a sua irmã, Renata!

Este é, sem dúvida, o melhor dos quatro livros da série "Todo Teu" publicados até agora! O romance de Nuno e Duarte desenvolve-se, a escrita está mais dinâmica, os diálogos ainda mais credíveis, o enredo é, por vezes, surpreendente. E com o quarto episódio chega mais um personagem magnético, a fabulosa Renata, a irmã do Duarte! O Nuno Oskar tem uma imensa capacidade para caracterizar personagens; quem consegue, por exemplo, esquecer a Elsa? Parabéns, Nuno!

View all my reviews

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Yoga para pessoas que não estão para fazer yoga by Geoff Dyer

Yoga para pessoas que não estão para fazer yoga Yoga para pessoas que não estão para fazer yoga by Geoff Dyer
My rating: 4 of 5 stars

Um livro de histórias "em" viagem e não "de" viagem, porque Dyer não escreve sobre as suas viagens, escreve sobre si e sobre a humanidade, usando para isso alguns dos muitos cenários exóticos ou improváveis (como as ruínas da Detroit industrial ou a Burning Man City) que visitou. É quase um livro de filosofia, e a menção ao "ioga" fica-lhe muito bem quando se pensa em reflexão e meditação. Mas não quando se pensa em calma e tranquilidade: as aventuras de Dyer são sempre arriscadas e emocionantes (apesar de ele se retratar como medroso) e sobretudo, cheias de uma ironia muito britânica que permanece mesmo depois de fecharmos a última página do livro.

View all my reviews

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Gratidão by Oliver Sacks

Gratidão Gratidão by Oliver Sacks
My rating: 4 of 5 stars

Este pequeno livro colige os quatro últimos ensaios que Oliver Sacks publicou no The New York Times, antes de morrer, em 2015, vítima de um cancro incurável. Com exceção do primeiro ensaio, "Mercúrio", os restantes foram escritos já depois de Sacks saber que estava condenado a morrer num prazo relativamente curto, mas de todos eles se desprende um grande amor pela vida e pela natureza, uma imensa gratidão por tudo o que nos é dado experimentar enquanto estamos vivos, "por podermos contemplar surpreendidos o pontilhado brilhante da Via Láctea numa noite escura de verão."

Dos quatro ensaios, o mais marcante é, porventura, o último do livro e o último que o autor escreveu poucos dias antes de morrer, "Sabat". Nele, Sacks recua até à sua infância para explicar com nostalgia o que era o Sabat judeu, o dia em que o ciclo semanal de trabalho infernal, correria e preocupações era interrompido para contemplação tranquila do divino. Mas Sacks afastou-se da religião quando a mãe soube da sua homossexualidade e o acusou, citando as Escrituras, "És uma abominação. Oxalá nunca tivesses nascido."

Sacks foi um homem da ciência, curioso, um médico preocupado com a salvação de vidas, mas também fascinado pelos elementos inertes da química. Nunca mais se reaproximou da religião, nem mesmo quando estava a chegar ao fim da sua vida e recordou com ternura o Sabat da sua infância: "E hoje, enfraquecido, sem fôlego, com os meus músculos outrora firmes debilitados pelo cancro, dou por mim a pensar, cada vez mais, não no sobrenatural ou no espiritual, mas no que significa viver uma vida boa e digna de ser vivida, de modo que nos sintamos em paz connosco. Descubro que os meus pensamentos se voltam para o Sabat, o dia do repouso, o sétimo dia da semana, e talvez também o sétimo dia da nossa própria vida, quando sentimos que fizemos o nosso trabalho e que, com a consciência em paz, podemos descansar."

Como referiu Christopher Hitchens em Mortalidade, se, quando se aproximar a minha hora, eu pedir para me converter, saibam que eu estou louco, e, por favor, não mo permitam.

View all my reviews

Era Uma Vez em Goa by Paulo Varela Gomes

Era Uma Vez em Goa Era Uma Vez em Goa by Paulo Varela Gomes
My rating: 4 of 5 stars

Graham, um inglês, entra pela fronteira terrestre de Goa em direção à mítica praia de Anjuna, que vira numa fotografia paradisíaca em casa de um amigo em Bombaim. Estamos em 1963, a Índia de Nehru acabou de invadir a colónia portuguesa e Graham é moreno, poderia bem ser um "pacló", o que levanta dúvidas às novas autoridades do território, em estado de alerta contra possíveis infiltrações dos antigos administradores. Quando finalmente consegue chegar a Anjuna, viajando em camiões e camionetas (com velhos ao colo), carroças puxadas por búfalos, à boleia, depois de inúmeras peripécias (acolhido por um médico goês, encharcado pelas monções, ameaçado com uma pistola por um agente da PIDE, apanhando boleia de um aristocrata local que tem, de visita, o escritor Graham Greene...), descobre que a realidade não corresponde frequentemente ao mito, sendo muitas vezes pior, mas podendo ser, por vezes, muito melhor e surpreendente.

Este é um livro de viagens a fingir! A fingir porque é narrado na primeira pessoa, por Graham, um inglês, quando o autor é Paulo Varela Gomes, um português; a fingir porque descreve uma viagem que não aconteceu, embora saibamos que o autor conhece bem Goa por lá ter vivido alguns anos; a fingir porque o próprio autor o confessa, em divertidas notas de rodapé. Mas apesar de ser a fingir, consegue proporcionar-nos uma emocionante viagem a uma época em que Goa já não era portuguesa e católica, mas ainda não era indiana e hindu, quando ainda se falava português e concanim, mas já se começava a aprender inglês nas escolas, numa época em que ainda não tinham chegado as hordas de turistas, primeiro os hippies em busca de um Shangri-La no Índico e depois dos gigantescos resorts "all-inclusive" à beira-mar.

Um livro de viagens é como um rio, vive da dinâmica do caminho, da perseguição tenaz de um destino, de um objetivo. "Era uma Vez em Goa" é também um rio que corre inicialmente muito forte, montanhoso, mas que, com a chegada a Anjuna, acalma como se entrasse numa albufeira de uma grande barragem que lhe impede a marcha. Aí chegado, "Era uma Vez em Goa" parece-se mais com um romance do que com um livro de viagens. Mas esse lago sem saída aparente é indispensável para que Graham se descubra (no pedaço de escrita mais poderosa de toda a narrativa) e descubra que o seu destino é prosseguir a viagem.

View all my reviews

terça-feira, 10 de maio de 2016

Dançar a Vida, Memórias by Jorge Salavisa

Dançar a Vida, Memórias Dançar a Vida, Memórias by Jorge Salavisa
My rating: 3 of 5 stars

O percurso profissional de Jorge Salavisa, com uma primeira etapa estrangeira, onde conviveu com bailarinos, coreógrafos, empressários e aristocratas famosos, entre os quais um jovem Nureyev e Margot Fonteyn em final de carreira, e uma segunda etapa em português, com a sua passagem pelo saudoso Ballet Gulbenkian, pela CNB, Opart e Teatro São Luiz, onde se centra no desenvolvimento de jovens bailarinos, mas também na apresentação em Portugal de grandes nomes, como Pina Bausch, mas onde a intriga política já interfere com os seus desígnios artísticos.

O primeiro capítulo é excelente, arrasador mesmo! (pode ser lido aqui). Parece lançar as memórias de alguém que andou distraído da vida e lhe descobriu o valor apenas quando confrontado com um cancro. A forma franca e desapaixonada como Jorge Salavisa relata as subsequentes tentativas de suicídio frustradas e a descoberta no IPO de situações incomparavelmente mais injustas e graves que a sua é desarmante. O estilo de escrita mantém-se simples e intimista ao longo de todo o livro, mas as elevadas expectativas criadas com o primeiro capítulo ficam por satisfazer. Virada a última página, ficamos a conhecer todo o percurso profissional do autor, mas ficamos sem saber quem era esse homem que fez essa descoberta surpreendente aos setenta anos de idade, o que sentiu ao longo da vida, quem amou.

View all my reviews

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Na Patagónia by Bruce Chatwin

Na Patagónia Na Patagónia by Bruce Chatwin
My rating: 4 of 5 stars

Em 1974, Bruce Chatwin, um inglês "queimado", segundo disse, "por trabalhar numa espécie de casa funerária de luxo [a leiloeira Sotheby's] (onde a vida lhe parecia) gasta em homologações e avaliações de apartamentos de mortos" e depois de um período como editor de arte no Sunday Times, decide partir sem aviso: "Vim para a Patagónia", foi o curto telegrama que enviou ao seu chefe de redação, já depois de ter chegado.
Desde pequeno, Chatwin sonhava visitar a Patagónia, a terra de onde provinha o pedaço de pele de "brontossauro" que tanto o fascinava em casa dos seus avós, e é a partir desta memória que parte para a sua "narrativa de uma viagem real mas que também foi simbólica... (...) o narrador viaja para um país distante à procura de um estranho animal: pelo caminho depara-se com estranhas situações, pessoas e outros livros, que lhe contam estranhas histórias que ele colige para deixar um testemunho."

Embora seguindo a tradição de Robert Byron, que tanto admirava, Chatwin é profundamente inovador neste livro, tanto na forma como no estilo condensado e sucinto da escrita. Esta é literatura de viagens, mas uma literatura que nos faz viajar não só pela geografia dos locais como também pelo espírito da terra, moldado pelas histórias dos homens que por lá passaram e morreram. Histórias dos índios da Terra do Fogo (dizimados pelos colonos e pela varíola no final do século XIX), histórias das peripécias por que passou o dicionário da metafórica língua yamani, elaborado pelo reverendo Thomas Bridges, o grande e único monumento que subsistiu da cultura desses povos austrais desaparecidos. Lendas sobre os fugitivos da polícia que vaguearam por ali (Butch Cassidy and the Kids, os revolucionários anarquistas argentinos), de refugiados de guerras e de perseguições (galeses, escoceses, judeus, nazis alemães...) ou ainda de gente aventureira, que não consegue estar fechada entre as quatro paredes de uma casa de cidade e prefere a solidão e os perigos dos mares e terras do fim do mundo, como o marinheiro Charley, que conseguiu salvar toda a tripulação do seu navio encalhado perto do Estreito de Magalhães tal como profetizado por um louco à sua partida da Austrália, meses antes, ou Herman Eberhard, o "rapaz viril com tremendos apetites" que escapou da Academia Militar prussiana e viria a estabelecer-se em Puerto Consuelo, depois de subir a remos o desfiladeiro da Última Esperança, onde descobriu uma gruta, sobre uma falésia, repleta de ossos e da pele do "brontossauro" que o marinheiro Charley haveria de oferecer ao avô de Bruce Chatwin e o levaria a escrever este livro.

View all my reviews

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Todo Teu: Segunda by Nuno Oskar

Todo Teu: Segunda Todo Teu: Segunda by Nuno Oskar
My rating: 0 of 5 stars

As comemorações do 10 de junho, dia de Portugal, decorrem em Sesimbra, tão festivas quanto o sentimento que parece finalmente aproximar Duarte e Nuno, mas um contratempo inesperado ameaça estragar a festa...

Sem dúvida, o mais conseguido dos três livros publicados até agora pelo Nuno... revela evolução no domínio da escrita, das manobras do enredo do ritmo da ação. Muito mais forte, mais dramático e emocionante! Eleva a fasquia das expetativas para o próximo episódio.

View all my reviews

Stud by Phil Andros

Stud Stud by Phil Andros
My rating: 5 of 5 stars

Treze aventuras de Phil Andros, o surpreendente prostituto de Samuel M. Steward. Em Stud, Phil é assediado num campo de férias num parque nacional das montanhas americanas; numa cidade do sul, em ambiente racista, Phil apaixona-se por um negro e escapa-se com ele para Chicago; noutra história, dá por si a aconselhar um jovem operário fabril virgem, cuja transformação, um ano mais tarde, o deixará abismado; descobre um sentimento sem nome, irresistível e muito mais forte e doloroso que o amor; e muitas outras situações que revelam um prostituto de uma humanidade fora do vulgar, tolerante, generoso, culto, forte mas simultaneamente frágil e sem receio de o confessar.

Stud diverge dos restantes romances de Phil Andros por ser um conjunto de contos; apesar disso, ao centrarem-se num mesmo personagem tão marcante, as várias histórias quase nos surgem interligadas, como se fossem... um romance. Mas não só, ao contrário das outras aventuras de Phil, estas abandonam o registo exagerado e repetitivo da pornografia, o que, de certa forma, as beneficia, abrindo espaço erótico à imaginação do leitor. Trata-se, sem dúvida, de uma das melhores obras de Sam Steward, onde a sua escrita e o seu talento para observar a vida e as pessoas que o rodeiam com um olhar meticuloso mas isento de julgamento atingem o zénite.

View all my reviews

sábado, 2 de abril de 2016

O Mestre de Música by Vasco Graça Moura

O Mestre de Música O Mestre de Música by Vasco Graça Moura
My rating: 4 of 5 stars

Numa noite de temporal, uma velha encontra o cadáver de três homens mortos pelas tropas francesas que invadiram Portugal, e reconhece um. Nessa mesma noite, num palacete de província fantasmagórico, uma mulher grita as dores de um parto que está prestes a acontecer. A velha é a parteira que irá ajudar a trazer ao mundo um menino, que será protagonista ausente de uma história de amor, desejo, traição e morte.

É uma delícia ler um livro bem escrito, para mais em português. Vasco Graça Moura dá-nos uma escrita culta sem ser pretenciosa, elegante sem ser vaidosa, num cenário histórico que nos surge natural, realista e muito interessante. Pena que seja um livrinho tão pequeno...

View all my reviews

The Caravaggio Shawl by Samuel M. Steward

The Caravaggio Shawl The Caravaggio Shawl by Samuel M. Steward
My rating: 3 of 5 stars

Alice Toklas leva umas amostras de lã até ao Louvre, para as comparar com a cor da pele do Orfeu, um quadro do grande Caravaggio que a Itália ofereceu a França. Quer surpreender Gertrude Stein com um xaile exatamente da mesma cor que a sua companheira tanto havia apreciado ontem, na abertura da exposição. Mas ao aproximar-se do quadro com as amostras, toca-lhe por acidente e percebe que a tinta ainda está fresca! Um quadro a óleo do século XVI e a tinta ainda está fresca? O mistério adensa-se quando Alice reporta o insólito e descobre que o responsável pela segurança está morto no seu gabinete e, caído no chão, um pequeno pin de Jean Marais o namorado de Cocteau...

Mais um romance policial em que as heroínas-detetives são as duas famosas escritoras americanas expatriadas em França, no cenário da cidade de Paris., recheado de personagens históricos da cultura francesa e anglo-saxónica, com um desfecho agitado, onde Alice Toklas tem um desempenho digno dos melhores duelos do Oeste americano.

View all my reviews

segunda-feira, 28 de março de 2016

3 e 15 by Eduardo de Souza Caxa

3 e 15 3 e 15 by Eduardo de Souza Caxa
My rating: 4 of 5 stars

Inteligente, divertido, mordaz, intrigante, profundo, emocionante... o primeiro livro de Eduardo de Souza Caxa, 3 e 15, envolve poesia, com crónicas, com reflexões e memórias, e deixa-nos positivamente com fome de mais.

View all my reviews

domingo, 13 de março de 2016

Vejo Uma Voz: Uma Viagem ao Mundo dos Surdos by Oliver Sacks

Vejo Uma Voz: Uma Viagem ao Mundo dos Surdos Vejo Uma Voz: Uma Viagem ao Mundo dos Surdos by Oliver Sacks
My rating: 4 of 5 stars

Esta excelente incursão de Oliver Sacks no mundo dos surdos está organizada em 3 partes:
1. a primeira faz uma abordagem histórica sobre os surdos e a surdez, e explica-nos como surgiu a língua gestual americana, como não é uma simples transliteração em gestos das línguas faladas, nem sequer um conjunto de gestos de mímica ou pantomima; antes é uma língua completa, com uma sintaxe, semântica e gramática próprias, fonte de uma cultura específica e riquíssima (teatro, poesia, literatura, dança), que, de certa forma, é inacessível aos ouvintes.
2. a segunda parte trata da surdez do ponto de vista neurológico e explica-nos as diferenças entre surdez pré-linguística (quando se fica surdo antes de aprender a falar porque, por exemplo, se nasceu já surdo) e pós-linguística (quando a surdez tem origem em doença ou acidente ocorrido depois de aquisição da fala), descrevendo os hipotéticos mecanismos do cérebro envolvidos na aprendizagem da linguagem, salientando a enorme plasticidade do cérebro e as maiores capacidades dos surdos no que respeita a acuidade visual e organização do espaço.
3. por fim, Sacks descreve um episódio de revolta de estudantes na Universidade de Gallaudet, uma universidade americana destinada ao ensino dos surdos. Os alunos não aceitaram a eleição de um reitor não-surdo, exigindo que fosse escolhido, pela primeira vez, um surdo, no que constituiu um gesto de afirmação de um movimento identitário e de reivindicação de direitos em tudo semelhante aos movimentos feminista, dos negros ou dos homossexuais.

Em consequência da sua organização, "Vejo Uma Voz" não é um livro estruturado, e a profusão de notas de rodapé pode acabar por perturbar a leitura, mas tais questões são insignificantes quando comparadas com a faculdade que este livro tem de nos obrigar a pensar, de nos despertar para uma realidade na qual nunca tínhamos reparado, mesmo estando ao nosso lado (a prevalência da surdez é de 1 em cada 1000), e, se tínhamos, era com sentimentos de compaixão ou de preconceito.

Sim, porque quem não se recorda de ter, na infância, um familiar ou vizinho "surdo-mudo"? E, na verdade, nem deveria haver qualquer problema com o aparelho vocal do miúdo(a). Seria até, provavelmente, uma criança inteligente, enclausurada numa prisão de comunicação, cheia de vontade de aprender, mas sem dispor das ferramentas para o fazer. Normalmente, pelos seus sons guturais de protesto, por não se desenvolver como as outras crianças, os surdos pré-linguísticos eram classificadas como imbecis e enclausurados em hospícios e reformatórios. Sacks descreve que, quando se ensinava a estas crianças uma língua gestual, elas desabrochavam de repente, curiosas, inteligentes, ansiosas por aprender e por comunicar. Alguns deles tornaram-se excelentes escritores, pintores ou engenheiros. E pensar que, a partir de meados do século XIX até à segunda metade do século XX, as línguas gestuais foram proibidas em muitos países, como a Inglaterra, onde a imposição da conformidade vitoriana penalizava as minorias, como as de surdos, mas também, por exemplo, dos "sodomitas"! Em Portugal, por razões um pouco diferentes, também a Língua Gestual Portuguesa esteve proibida até 1974, pois a ditadura temia que, não sendo compreendida pela polícia política, fosse usada para conspirar contra o regime.

Mas ainda hoje temos por hábito classificar os surdos como "deficientes", como se fosse possível resumir a riqueza e o potencial de um individuo a uma única característica física. Foi com enorme espanto que descobri que é precisamente o contrário: por exemplo, as crianças surdas de nascença conseguem começar a comunicar com os pais em linguagem gestual logo a partir dos 4 meses, para pedir leite, por exemplo, enquanto as crianças não-surdas apenas começam a articular as primeiras palavras por volta do primeiro ano de idade. Os surdos, geralmente, têm uma maior consciência visual e espacial, o que se reflete nas línguas gestuais, que são mais ricas e concisas que as línguas faladas no que se refere a localização e orientação, e na expressão corporal. Neste e noutros campos, surpreendentemente, os "deficientes" somos nós, os "ouvintes".

Dei por mim a pensar: e porque é que não ensinamos a todas as crianças, desde a mais tenra idade, a língua gestual do seu país, fazendo com que, dentro de algumas gerações, esta se tornasse nativa de toda a população, tal como a língua falada? Caçávamos dois coelhos de uma assentada: nós, os "deficientes-ouvintes", poderíamos beneficiar de uma maior sensibilidade visual/espacial e a surdez deixaria de ser impedimento à integração na sociedade de pessoas com enorme potencial.

Costuma dizer-se que "burro velho não aprende línguas", mas eu não quero ficar para trás. Fui à procura na Net e encontrei uma Escola Virtual de Língua Gestual Portuguesa. Já completei o primeiro módulo e fiquei aprovado (com excelente nota!) no respetivo questionário de avaliação. Vá lá, é giro... e é grátis!


View all my reviews

quinta-feira, 10 de março de 2016

The Boys in Blue by Phil Andros

The Boys in BlueThe Boys in Blue by Phil Andros
My rating: 4 of 5 stars

De visita a LA, Phil Andros dirige-se a um polícia que orienta o trânsito num cruzamento movimentado da cidade para pedir uma informação. Alto e atlético, a farda impecável e justa, deixando perceber mais que cobrindo os seus dotes, o queixo quadrado com covinha, óculos de sol escuros, uma encarnação perfeita do sensual chui "tomfinlandesco", Greg, o polícia é extremamente simpático e paternal! Perturbado, Phil, que sempre teve um fascínio por fardas, decide voltar no dia seguinte ao mesmo local, apesar de ser dia de Natal. E, por sorte, lá está ele, no mesmo cruzamento, a causa da sua noite mal dormida. Phil convida-o para um café e, por sorte, o turno de Greg termina em 10 minutos e, por sorte também, a casa de Greg fica apenas a 2 quarteirões... Segue-se uma tarde de álcool e sexo inesquecíveis, com Phil a descobrir que o seu polícia é um "hétéro machão" para quem todo o sexo é pouco ("homem ou mulher? muito!"). E descobre também que ele mesmo, Phil, apesar de prostituto masculino, gosta de obedecer e de se submeter, e inclusive, se excita masoquisticamente com um pouco de dor. Greg pede transferência para São Francisco, para estar perto de Phil, que decide candidatar-se e é admitido na polícia local, e os dois, em conjunto com um terceiro polícia da mesma esquadra, vão morar para um apartamento onde todo o tipo de aventuras sexuais acontecem...

Da série de livros eróticos que Samuel M. Steward escreveu com o pseudónimo Phil Andros para ganhar dinheiro, este será um dos mais pornográficos, com as cenas de sexo a sucederem-se, num catálogo de configurações, fetiches e posições em que o exagero das dimensões e quantidades tem papel de relevo. Apesar disso, a narrativa é bem sustentada num enredo romântico simples e na personagem simpática, descontraída, "cool", amoral e tranquila de Phil Andros, a quem não conseguimos resistir.

View all my reviews

domingo, 6 de março de 2016

On the Move: A Life by Oliver Sacks

On the Move: A Life On the Move: A Life by Oliver Sacks
My rating: 4 of 5 stars

Oliver Sacks foi um neurocirurgião solitário e curioso, que não gostava da aborrecida investigação científica feita de relatórios e estatísticas, antes preferia ouvir e tentar compreender os seus pacientes. E tinha também uma compulsão por contar as suas histórias - o ato de escrever enchia-o de uma felicidade intensa - pelo que foi acumulando milhares de registos médicos e diários, que posteriormente transformaria em livros de grande sucesso, alguns deles adaptados a filmes ou documentários, como "Despertares" (com Robert de Niro e Robin Williams), "O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu" (que deu origem a uma ópera composta por Michael Nyman) ou "Musicofilia".

Quando lhe foi diagnosticado um cancro em fase terminal, decidiu escrever a sua autobiografia, "Em Movimento: Uma Vida", em jeito de testemunho franco sobre a vida que viveu, as experiências com drogas fortes, a paixão por motas, o período louco de bodybuilder na Califórnia e a sua homossexualidade tímida, que ele considerava uma doença (a timidez, já que, para ele, a homossexualidade era apenas aquilo que ele era), mas sobretudo sobre a sua paixão, a neurocirurgia e as suas explorações de várias perturbações neurológicas que o levariam a publicar obras de grande sucesso. A sua autobiografia seria publicado quatro meses mais tarde, três meses antes da sua morte, em 30 de agosto de 2015.

"Em Movimento: Uma Vida" está escrito numa linguagem simples, que Oliver Sacks utiliza tanto para descrever algumas perturbações neuropsicológicas graves ou alguns desafios científicos complexos, como para contar algum episódio divertido sobre os seus familiares ou pacientes. Está escrito na primeira pessoa, mas o autor quase se apaga, falando-nos entusiasticamente das suas paixões mais do que de si próprio ou do enorme prestígio que conseguiu alcançar. E quando o faz, quando fala de si, é porque é ele próprio o sujeito de estudo (partiu uma perna e deixou de sentir que ela pertencia ao seu corpo; descreveu pormenorizadamente a perda progressiva de visão devido a um melanoma ocular, que o deixaria cego de um olho) ou usa um tom de crítica paternal (às loucuras que cometeu com motas e drogas) ou é profundamente modesto, escondendo-se por detrás de um humor suave (o seu maior receio, quando foi condecorado com a Ordem do Império Britânico, era poder "peidar-se" em frente da rainha de Inglaterra).

Um homem que dedicou toda a sua vida a estudar e a tentar ajudar os outros, este homem possuidor de um enorme coração, não experimentou o amor, a paixão e o sexo senão brevemente, na juventude, e mais tarde, já com setenta e sete anos, com Billy Hayes: "Tímido e inibido durante toda a minha vida, deixei que a amizade e a intimidade crescesse entre nós, talvez sem compreender completamente a sua profundidade (...) Uma enorme e inesperada dádiva na minha velhice, depois de uma vida de isolamento.” Um homem que se isolou, refugiando-se nos outros, para se esconder de si próprio?



View all my reviews

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Murder Is Murder Is Murder by Samuel M. Steward

Murder Is Murder Is MurderMurder Is Murder Is Murder by Samuel M. Steward
My rating: 4 of 5 stars

Nas traseiras da velha casa apalaçada onde passam o verão, na pequena aldeia rural de Bilignin, em França, Gertrude Stein e Alice B. Toklas têm um pequeno jardim com vista para o vale e, lá ao longe, para o Monte Branco. Um dia, sentada sobre o muro do jardim, Alice é testemunha de uma cena inusitada nos campos em frente. Grand Pierre, o pai Petit Pierre, o apolíneo rapaz surdo-mudo que é o seu jardineiro, dirige-se, furioso, ao homem mais detestável da aldeia, Monsieur Debat. Quando regressa de casa, onde foi chamar a sua Lovey (Gertrude) para assistir ao que ela julga será uma briga violenta, Alice (a Pussy de Gertrude), depara-se apenas com Debat, lavrando as suas terras como se nada tivesse acontecido. No dia a seguir, Petit Pierre chega, preocupado com a ausência do pai, que não dormiu em casa, coisa que nunca acontecera antes, o que faz com que as duas mulheres, com a ajuda de Johnny-jump-up, um amigo americano acabado de chegar a Bilignin para as visitar, partam numa aventura policial que os levará a descobertas surpreendentes...

Este livro é um interessante romance policial, com muitos dos ingredientes habituais: um crime, um suspeito, um corpo em falta, uma série de indícios que levam à descoberta da verdade e à prisão do criminoso, e um final inesperado. Mas afasta-se do género quando faz com que as heroínas-detetives sejam sejam as famosas Gertrude Stein e Alice B. Toklas, o casal de expatriadas americanas que fizeram do seu salão parisiense um centro de arte e cultura por onde passaram Picasso, Paul Bowles, Cecil Beaton, Thornton Wilder, Lord Alfred Douglas e outros, e porque mistura a ficção policial com as memórias do autor, Samuel Steward, ele próprio um personagem do enredo (Johnny), que se correspondeu com as famosas escritoras e as visitou em Bilignin, Paris e Roma.

O enredo está salpicado de sexualidade, sexo e desejo sexual, o que também lhe dá uma feição especial em relação aos romances do género. Johnny-jump-up, que dificilmente distinguimos do narrador e do autor, é um pinga-amor gay (daí o "jump-up"?), que se sente atraído pela beleza escultural do jardineiro, sempre em tronco nu, que gosta de fazer trocadilhos de cariz sexual nas suas conversas com Alice e Stein, elas próprias um casal de lésbicas, e que seduz o secretário da polícia, a pedido das suas amigas detetives, para obter informações valiosas para desvendar o mistério do crime que, por coincidência, inclui uma componente de sodomia.

A escrita é escorreita e rica em referências culturais, em expressões idiomáticas do francês, no esboço dos personagens de Stein e Toklas, cujos diálogos nos aparecem nos estilos próprios de cada uma, bem como nas reflexões dos três personagens principais que o narrador nos vai deixando aqui e além, como a que o meu amigo Miguel Botelho sublinhou e que não resisto a transcrever: "Isn't it wonderful," she [Gertrude] said, "how all animals know that the ultimate end of life is to enjoy it."

Tendo lido recentemente Dear Sammy: Letters from Gertrude Stein and Alice B. Toklas, o livro em que Sam Steward descreve as suas visitas ao casal Stein/Toklas e colige as cartas que delas recebeu, percebe-se o quanto a realidade é utilizada como material para a ficção, e é fácil compreender que este livro é sobretudo uma homenagem, uma bela declaração de profunda amizade e admiração do autor às suas duas amigas.


View all my reviews