quarta-feira, 9 de abril de 2014

EuroNovela by Miguel Vale de Almeida

EuroNovelaEuroNovela by Miguel Vale de Almeida
My rating: 3 of 5 stars

No cenário distópico de 2030, com a Europa imersa numa ditadura dos burocratas da EuroUnião discretamente capitaneados pelos alemães, a América em declínio político, económico e cultural, dominada pelos hispânicos e negros que empurraram os brancos para os bairros de lata, a Rússia completamente devastada por bandos de gatunos rivais que vagueiam pelo seu território, e o Japão reavivando as suas tendências hegemónicas sobre a Ásia, Eyup e Manuel, um casal homossexual, evadem-se de uma das ilhas-fortaleza da EuroUnião para se juntarem aos EuroCépticos, tentando em Lisboa seduzir Maria, uma tradutora A42TCL que está a trabalhar nos Planos do Novo Mundo.

Uma primeira incursão de Miguel Vale de Almeida no campo do romance e do sci-fi que, apesar de ter sido premiada com o Prémio Caminho de Ficção Científica, revela ainda um autor pouco maduro no campo da escrita ficcional, embora criativo e divertido.

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segunda-feira, 31 de março de 2014

Ara by Ana Luísa Amaral

AraAra by Ana Luísa Amaral
My rating: 5 of 5 stars

A autora começa por se interrogar se conseguirá escrever um romance e confessa que não é capaz, que a aterroriza mesmo "fazer uma história" e pôr personagens lá dentro. Declara que só sabe falar dela mesma e só "em poema." Depois lança-nos numa série de narrativas com temas aparentemente desconexos, algo crípticos, relacionados com sensações e memórias, "túneis e japoneiras". A pouco e pouco (à medida que as memórias são mais presentes? ou as sensações mais vívidas?) os textos vão ganhando contornos mais claros, maior consistência, e começa a emergir uma estrutura. O que parecia ser uma daquelas obras de prosa-poesia, cheia de subentendidos não entendíveis, transforma-se inesperadamente, aos nossos olhos, num romance, a história de um amor muito sentido e sofrido entre duas mulheres casadas. Como diz Eduardo Pitta, o livro "é na realidade um diário — ou, se preferirem, um récit autobiográfico — que dinamita o baile de máscaras das «conveniências»." O final, no entanto, não é feliz: o amor acaba sacrificado na ara das amarras da vida.

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quarta-feira, 26 de março de 2014

Poemas Homoeróticos Escolhidos by Paulo Azevedo Chaves and Raimundo de Moraes

Poemas Homoeróticos EscolhidosPoemas Homoeróticos Escolhidos by Paulo Azevedo Chaves and Raimundo de Moraes
My rating: 4 of 5 stars

Poemas Homoeróticos Escolhidos é uma coletânea de poesia que reúne sete poemas de Paulo Azevedo Chaves, publicados anteriormente em livros de sua autoria, para além de seis inéditos. Do mesmo autor, constam do volume oito traduções publicadas em livros anteriores, a partir de 1984, de grandes poetas como Walt Whitman, Abu Nuwas, Federico Garcia-Lorca, Luís Cernuda, Jean Genet, Constantino Cavafy ou Paul Verlaine . Os textos foram traduzidos do inglês, francês e espanhol. Os poemas selecionados por Raimundo de Moraes para esta coletânea foram publicados em dois livros de sua autoria, ambos lançados no Recife, em 2010: Baba de Moço (com assinatura de seu heterônimo Aymmar Rodriguéz) e Tríade. Na secção In Memoriam são homenageados dois poetas que se destacam, respectivamente – o brasileiro Cassiano Nunes e o mestre português António Botto. Um poema famoso de cada um deles consta desta secção.

Explica Paulo Azevedo Chaves acerca dos seus inéditos nesta coletânea: "procurei seguir à risca o conselho de Keats no dístico final de sua bela Ode Sobre uma Urna Grega: «Beleza é verdade, verdade, beleza, – isso é tudo / Que sabeis na terra e tudo que precisais saber». O que muitos certamente enxergarão como vulgaridade, indecência, obscenidade, para mim nada mais é do que a busca de uma linguagem visceral em consonância com o que pretendo exprimir – a realidade nua e crua do sexo, que deve prescindir de eufemismos e de termos e construções verbais bem comportados e/ou eruditos para descrevê-la e para exprimi-la. Entre quatro paredes, os homens, via de regra, transam como gatos – com brutalidade e sem meias ações, deixando aflorar o instinto despojado das barreiras do convencionalismo. Para descrever esse momento íntimo e brutal do sexo, seja ele homo ou heterossexual, usei uma linguagem igualmente íntima e brutal e, desse modo, na verdade do verbo encontro a beleza preconizada por Keats. Pois para mim, embora nem sempre beleza seja verdade, Verdade (com V maiúsculo) é sempre beleza."

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Ursamaior by Mário Cláudio

UrsamaiorUrsamaior by Mário Cláudio
My rating: 4 of 5 stars

Ursa Maior, a constelação de sete estrelas, o mesmo número dos protagonistas dos relatos de crime seguido de prisão que Mário Cláudio reuniu neste livro: Henrique, um estudante de medicina que assassina a namorada, Gerardo, um burguês viciado em jogo de casino, Sérgio, um polícia violador, Cristiana, um transsexual que se apaixona por um ladrãozeco, Rogério, o galã das academias de danças de salão que compra um Porsche com um cheque-careca, Albino, o dono de um snack-bar que trafica arte sacra, e Jorge, um drogado que acaba violado em grupo na sua camarata na cadeia.

A designação de romance que Mário Cláudio utiliza no título, "Ursamaior: romance", é intrigante, pois os personagens quase não se interrelacionam e as histórias quase não se cruzam. Henrique, cuja história é a mais extensa, surgindo dividida em vários relatos ao longo do livro, é o único personagem que aparece referido por outros personagens, mas tal não parece ser suficiente para servir de cola ao conjunto dos depoimentos (Ursamaior terá sido inspirado em casos reais, de detidos com quem Mário Cláudio falou na prisão, havendo mesmo notícia de um processo judicial instaurado pela família do verdadeiro Henrique). Assemelha-se mais, por isso, a um livro de contos de temática coesa, muito masculina, policial, dura e por vezes violenta.

A escrita é excelente. E a organização de cada história também, evocando as formas mais estruturadas da poesia (o decassílabo, o soneto,...) ou da música (a fuga, a sonata,...)! Há sempre uma primeira parte narrada na terceira pessoa que descreve o crime praticado por algum desconhecido ("o homem", "o rapaz",...) e que termina sempre com a mesma coda: "O homem chama-se..." Segue-se uma narrativa na primeira pessoa, mais extensa, em que o personagem, já preso, nos dá a sua perspectiva pessoal sobre o crime ou sobre a sua vida na prisão.

O resultado geral é um mosaico de fragmentos: pequenas histórias e pequenos tiques de pequenos personagens que, não fora serem criminosos, passariam desapercebidos, mas que agregados e moldados pela escrita de Mário Cláudio, se tornam interessantes.

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quinta-feira, 20 de março de 2014

Um Quente Agosto de John Wells

Um Quente Agosto Um Quente Agosto de John Wells com Meryll Streep, Julia Roberts, Vhris Cooper, Ewan McGregor, Margo Martindale, Sam Shepard, Julianne Nicholson,...
My rating: 9 of 10 stars

Um casal já para lá da meia idade, ele, Beverly, viciado em álcool e ela, Violet, em comprimidos, vivem com a filha solteira, Ivy, isolados no Oklahoma, no meio do nada, nas infindáveis planícies do midwest americano. Ele contrata uma empregada nativo-americana para ajudar em casa, pois Violet sofre de cancro da boca, e desaparece em seguida, para ser encontrado uns dias depois afogado num lago. A outras duas filhas, Barbara, acompanhada do ex-marido e da filha, e Rachel, que chega com o noivo, reúnem-se na casa do casal com a irmão de Violet, o marido e o filho, para o funeral e, talvez pela atmosfera fúnebre, ou por estarem todos separados há muito tempo, ou talvez mesmo pelo abrasador calor desse agosto, as verdades escondidas no seio daquela família emergem em cascata com uma crueza e uma violência inesperadas...

Espantosas interpretações de Meryll Streep (Violet), Margo Martindale (a irmão de Violet) e mesmo de Julia Roberts (Barbara), num cenário claustrofóbico, mas em que as surpresas se sucedem, não nos deixando tirar os olhos do ecrã e fazendo-nos meditar sobre os esqueletos dos nossos armários e os méritos da verdade nua e crua.

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