domingo, 2 de março de 2014

Esfolado vivo by Edmund White

Esfolado vivoEsfolado vivo by Edmund White
My rating: 5 of 5 stars

Não posso deixar de confessar que não era grande fã de Edmund White. Tinha lido A Boy's Own Story, O Homem Casado e começado a ler a biografia de Rimbaud: The Double Life of a Rebel (que abandonei a meio) e, assim de repente, não me lembro de mais nada. Mas chegou o João Roque e ofereceu-me este livro de contos e fiquei rendido. Agora já me apetece reler e comprar mais...

Tal como em O Homem Casado, são histórias sobre a morte e a doença (SIDA, a maior parte das vezes), mas são contadas pela ótica do desejo e da memória, uma memória que nem é saudosista nem lamechas, e um desejo que quase nunca é completamente correspondido (aliás, EW diz que o desejo nunca é satisfeito, apenas as esperanças o podem ser) e tem, quase sempre, uma componente fortemente sexual.

Um livro muito bem escrito, num tom muito pessoal, com os contos narrados quase sempre na primeira pessoa, evocando a Paris e a França onde o autor viveu 15 anos (talvez como ferramenta para dar mais credibilidade à narração e envolver mais o leitor, o que é plenamente conseguido), e revelando uma sensibilidade extraordinária para os dilemas, as agonias, as dores e as alegrias, as vidas dos rapazes e homens gay que são o centro das suas histórias.

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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Inside a Pearl: My Years in Paris by Edmund White

Inside a Pearl: My Years in ParisInside a Pearl: My Years in Paris by Edmund White

Just out of the press! I'm a fan of Edmund White and will download it soon :D

Edmund White was forty-three years old when he moved to Paris in 1983. He spoke no French and knew just two people in the entire city, but soon discovered the anxieties and pleasures of mastering a new culture. White fell passionately in love with Paris, its beauty in the half-light and eternal mists; its serenity compared with the New York he had known. 

Intoxicated and intellectually stimulated by its culture, he became the definitive biographer of Jean Genet, wrote lives of Marcel Proust and Arthur Rimbaud, and became a recipient of the French Order of Arts and Letters. Frequent trips across the Channel to literary parties in London begot friendships with Julian Barnes, Alan Hollinghurst, Martin Amis and many others. When he left, fifteen years later, to return to the US, he was fluent enough to broadcast on French radio and TV, and as a journalist had made the acquaintance of everyone from Yves St Laurent to Catherine Deneuve to Michel Foucault. He'd also developed a close friendship with an older woman, Marie-Claude, through whom he’d come to a deeper understanding of French life.

Inside a Pearl vividly recalls those fertile years, and offers a brilliant examination of a city and a culture eternally imbued with an aura of enchantment.

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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Loucura... by Mário de Sá-Carneiro

Loucura...Loucura... by Mário de Sá-Carneiro
My rating: 4 of 5 stars

O narrador propõe-se contar a história de Francisco, um grande artista, recentemente falecido, mas muito bizarro. Eram amigos de infância, mas não podiam ser mais diferentes: "eu olhava com especial embirração para o rosto branco e cor-de-rosa, para a cabeleira loura e anelada desse rapazinho de enormes olhos azuis, que me lembrava uma miss inglesa. Ele, por seu lado (...) nutrira por mim uma secreta antipatia. Incomodavam-nos as minhas feições másculas, a minha cor trigueira, os meus cabelos negros e lisos; numa palavra, toda a minha figura era a antítese da sua."
Raul tinha ideias estranhas e em relação às mulheres, à família, à poesia, ao tempo, à vida... saía da norma, era esquisito, meio louco. Mas que é a loucura? "«Na terra dos cegos, quem tem um olho é rei», diz o adágio; na terra dos doidos, quem tem juízo, é doido, concluo eu." Quando Raul se apaixona por Marcela, a sua vida e as suas ideias alteram-se, mas o seu raciocínio enviesado levará lentamente à tristeza e depressão e a um final fatal.

Um conto de muito bem escrito, com uma estrutura relativamente simples, embora com cenas muito belas, mas bastante ousadas para a moralidade da época. A transição lenta, mas inexorável, da altivez da diferença para a depressão dos becos sem saída em que Raul se vê enclausurado pelos seus raciocínios invulgares, é o fulcro desta obra e é feita com grande mestria pela mão de Mário de Sá-Carneiro.

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A porta ao lado by Guilherme de Melo

A porta ao ladoA porta ao lado by Guilherme de Melo
My rating: 3 of 5 stars

Marta apaixona-se pelo seu colega Gustavo, mas este é mobilizado para a Guerra Colonial em Moçambique. Os dois vivem intensamente um período curto de férias de Gustavo na Metrópole, e Marta engravida, mas decide abortar sem dizer nada ao namorado. Acontece o 25 de Abril, é negociada a paz com a Frelimo e Gustavo está de regresso depois de entregar o quartel às tropas do novo país. Nas picadas, em direção a Lourenço Marques, param a Chaimite para verter águas e Gustavo pisa uma mina e morre. Marta fica destroçada e arrependida por ter abortado! Dois anos depois, regressa à casa tradicional da família, em Castelo Branco, com um filho nos braços. Teima em chamar-lhe Gustavo, não quer dizer nada sobre o pai da criança, mas afirma que é como se fosse o filho do seu único amor. Gustavo (Guto para a mãe, para a avó e para a criada Mira) cresce no seio desta mentira, sem saber de nada, mas pressentindo algo...

Tal como em Ainda Havia Sol (1984), Guilherme de Melo utiliza uma estrutura com dois narradores (os dois personagens principais, Marta e Guto) discursando na primeira pessoa, em capítulos alternados. Tal como no romance de 1984, pelo número reduzido de personagens e pela simplicidade da estrutura narrativa (o próprio enredo é também um pouco previsível e por vezes pouco credível), esta obra assemelha-se mais a um conto grande do que a um romance. Mas ao contrário de Ainda Havia Sol, este romance parece ser mais coerente, mais uno, mais maduro (o romance de 1984 sugere experimentação literária), embora o final seja algo surpreendente, sobretudo para um autor homossexual: "(...) é falso que se não possa viver com a mentira. A questão não reside em ser, ou não, possível; a questão está em aprender, ou não, a viver com ela."

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Instantâneos: fragmentos da memória by Margarida Leitão

Instantâneos: fragmentos da memóriaInstantâneos: fragmentos da memória by Margarida Leitão
My rating: 4 of 5 stars

Uma coletânea de pequenos contos, captando instantes fugazes no tempo, pequenas situações da vida diária, recordações da infância e hesitações da velhice, quase que evocando as fotografias instantâneas que se tiram e fixam aquela expressão inesperada de felicidade ou aquele momento especial de emoção! Contado num tom quase pessoal, intimista, narrado muitas vezes na primeira pessoa, Instantâneos envolve-nos em cheiros, imagens e situações familiares e faz-nos sentir, por vezes, espectadores da vida alheia, espiando o que se passa numa rua, espreitando para dentro do café da aldeia ou ouvindo à esquina uma conversa de namorados, mas sempre revelando uma sensibilidade e um calor humanos que não podem deixar de emocionar o leitor.

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