domingo, 19 de janeiro de 2014

Navegador SolitárioNavegador Solitário by João Aguiar
My rating: 3 of 5 stars

As primeiras páginas são verdadeiramente divertidas. Pobre Solitão (o nome é responsabilidade vaca da madrinha Preciosa), assombrado pelo avô Aquelino, que o quer utilizar para ser, depois de morto, o que não conseguiu ser em vida! Na segunda parte, Solitão aprendeu a escrever sem erros com a professora de português que anda a comer. Confesso que fiquei com pena do calão imaginativo, cheio de erros e sem vírgulas da primeira parte, como quando Solitãoo se atrapalha com "piçaarvativo" para dar a sua primeira "berlaitada" e depois se confessa aos padre os seus pecados contra a "castridade", pedindo a "besolvição". A terceira parte é dedicada à ambição desmedida de ascensão económica e social de Solitão (que odeia o nome e quer que lhe chamem Francisco): vai estudar Direito para Lisboa, incentivado pelo Dr. Severo, que até lhe "punha" um apartamento para poder "desfrutar" mais à vontade do físico do rapaz, se ele quisesse (não quis)! é uma fase de grandes sacrifícios, muito trabalho, muito estudo, pouco dinheiro e pouco sexo... Salva-se um novo personagem, a cavalona da prima Ivone, que apesar de estar para casar, vai "aliviando" o desgraçado do Solitão... A quarta e última parte é sobre redenção e castigo: a redenção do Solitão, a redenção da Etelvina (uma prostituta com bom coração), a redenção do bem e do amor verdadeiro; o castigo do mal, das almas penadas, do interesseirismo, da riqueza oca e da ambição desmedida.

Apesar de ter conseguido criar alguns personagens e dispositivos muito interessantes (Solitão, o avô Aquilino, Teresa e a prima Ivone, a escrita cheia de erros da 1a. parte, a escrita automática), por vezes, o autor parece andar um pouco perdido, sem saber o que fazer com eles: Angelino sempre a curar-se e a recair na droga, o avô Aquilino sempre a dizer que não pode desvendar os mistérios do outro mundo, o pai sempre a chatear o moço, etc. Alguns dos personagens são muito vistos (a puta de bom coração, a aristocrata muito digna) e o enredo acaba por ser pouco surpreendente ou original... o rapaz salva-se das más influências... e tudo (até) termina com um "casamento improvável"!

A homossexualidade é um dos temas sempre presentes ao longo do livro, contribuindo decisivamente para o enredo, embora sem ser o tema central. O Angelino arranja dinheiro para a droga vendendo-se aos homossexuais do Parque Municipal de Giestal, onde Solitão encontra (e satisfaz) o Dr. Severo. Mas o Dr. Severo é um dos "maus" da história, não por ser homossexual, mas por ser hipócrita (é casado, tem duas filhas e um apartamento em Almada, onde ao longo da vida foi tendo rapazes "por conta". O próprio Solitão não é moralista em relação ao assunto, acreditando que chegou a ter prazer, embora nem a si próprio o conseguisse confessar.

Pelo meio, surgem algumas considerações interessantes sobre a sociedade portuguesa-europeia-ocidental que se mantêm actuais passados quase 20 anos sobre a escrita do livro: sobre o "provincianismo" e a "meia-tigela". "A sua predominância no actual momento histórico pode ser considerada a partir de duas perspectivas diferentes. A mais comum - que a Rita partilha - é aquela que se limita a vê-la como um sinal dos tempos, partindo do princípio de que os tempos são decadentes e abastardados, sem mais. A outra perspectiva colocará, ao menos como hipótese, que decadência e abastardamento são meros ingredientes de mutação e assinalam, ainda que indirectamente, um caminho positivo."

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Autores, Leitores e EditoresAutores, Leitores e Editores by Francisco Vale
My rating: 3 of 5 stars

Um mosaico muito interessante sobre livros, autores, a leitura e o sector da edição, pelo editor Francisco Vale, que reúne um conjunto de textos, alguns, mais curtos, publicados no blogue da sua Relógio D'Água sobre temas gerais de atualidade (2009), outros, mais longos e mais refletidos, inéditos ou já publicados como prefácios ou entrevistas. Mas pelo facto de ser apenas uma coletânea de textos, fica-nos "água na boca" por uma obra mais ambiciosa, que aborde de forma mais sistemática a visão e as ideias do autor sobre esta temática.

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Dois Mundos, Uma PaixãoDois Mundos, Uma Paixão by Pedro Xavier
My rating: 4 of 5 stars

Dois Mundos, Uma Paixão, de Pedro Xavier, é o livro 1 da série Dois Mundos, que conta a história do romance e das aventuras de Pedro e Davis, dois rapazes separados por dois mundos que se encontram para combater o mal e defender o amor. Esta é a obra de estreia de Pedro Xavier, um jovem autor, cheio de criatividade e imaginação, natural do Alentejo e amante da natureza. Um autor que a INDEX ebooks se orgulha de editar e que tem a certeza que te vai surpreender. Vê como obter os restantes livros da série Dois Mundos aqui.

Pedro Xavier, no seu primeiro livro, revela uma imaginação e uma criatividade enormes, surpreendendo-nos a cada capítulo. A escrita é fluente e rápida, a leitura muito agradável.

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O Testamento de MariaO Testamento de Maria by Colm Tóibín
My rating: 3 of 5 stars

Nesta reflexão sobre a "humanidade" de personagens bíblicos, Tóibín questiona-se sobre o que terá sentido Maria, a mãe de Jesus, assistindo ao caminho do seu filho para a cruz, à sua morte e à subsequente fabricação do mito religioso. E a resposta é incredulidade, raiva, dor, medo e incompreensão: esta Maria de Tóibín é, acima de tudo, uma mãe de carne e osso, que não tem nada a ver com a imagem de serenidade abnegada e algo insensível, já quase divina, pintada pela Igreja Católica.
Trata-se de um conto longo, escrito num tom de autoreflexão e confidência que faz lembrar Memoirs of Hadrian, com alguns episódios surpreendentes e vívidos, como o da ressureição de Lázaro.

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Já Não Gosto de ChocolatesJá Não Gosto de Chocolates by Álamo Oliveira
My rating: 4 of 5 stars

As memórias de Joey Sylvia, José Silva antes de emigrar dos Açores para a Califórnia, quando já octogenário, preso numa cadeira de rodas num lar para idosos, passa em revista a sua vida e a da sua família. Ao recordar-se de como viveu, Joey conta-nos, realmente, como foi morrendo: o fim da nostalgia pela sua ilha natal, a perda prematura, vítima de SIDA, de John, o seu filho mais novo, gay, e a morte da sua mulher, Mary, o pilar da sua vida, tudo contado com o distanciamento e a resignação de alguém que já desistiu de viver e não tem nada mais a perder.
A escrita da Álamo está mais apurada, menos pretensiosa, sempre rica e surpreendente, e cola-nos à leitura deste belo e emocionante romance.

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