Mostrar mensagens com a etiqueta Portuguese. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Portuguese. Mostrar todas as mensagens

domingo, 19 de janeiro de 2014

O AlephO Aleph by Jorge Luis Borges
My rating: 4 of 5 stars

Quero começar por dizer que a edição em papel que comprei, da Quetzal, é fantástica. Este é um daqueles livros que dá prazer mesmo antes de se começar a ler: a encadernação em que as páginas abrem completamente sem se descolarem, o papel rugoso da capa, o cuidado com o design, as badanas largas com informação sobre o autor e foto, a mancha do texto bem espaçada com uma fonte bonita e fácil de ler... e... hummm... a expectativa boa de ir passar uns bons momentos na companhia da imaginação estonteante de Jorge Luis Borges!!!

O primeiro conto do livro, "O Imortal", é o conto central e de maior dimensão da coletânea, e merecia ter-lhe dado o nome. Começa "a la" Borges: uma história dentro de um livro que pertence a outra história, e ainda por cima remetendo para países exóticos e tempos remotos ("Em Londres, nos princípios do mês de Junho de 1929, o antiquário Joseph Cartaphilus, de Esmirna, ofereceu à princesa de Lucinge os seis volumes em quarto menor (1715-1720) da Ilíada de Pope"). Esta técnica de Borges parece que acrescenta veracidade ao é dito e desperta o nosso sentido de "bisbilhotice" levando-nos a acreditar mais no que está a ser dito e a querer ler mais... "very clever", não é?

Depois há Marco Flamínio Rufo, que não resiste a partir em busca do mito imortalidade. Quando, depois de atravessar montanhas e desertos, suportar perigos e atentados, chega quase morto à sombra da muralha da cidade, descobre que não há portas, apenas uma caverna ao fundo da qual há um poço, ao fundo do qual existe uma câmara circular com 9 portas, 8 das quais dão entrada para um labirinto que só tem saída para a mesma câmara circular e a 9ª que leva a outra câmara circular idêntica à primeira com mais 9 portas e 8 labirintos... uau! a imortalidade é verdadeiramente difícil de alcançar...

Depois há o deserto à volta da cidade em que os anos se repetem, monótonos, sedentos e iguais, mas em que um dia acontece o inesperado... uma forte chuvada abate-se sobre os trogloditas que ali vivem. Argos, o troglodita amigo de Rufo, de olhos postos no céu, chorava. Rufos grita-lhe, Argos, Argos! E Argos abre a boca pela primeira vez para responder: "Argos, cão de Ulisses". Perguntando-lhe que mais sabe sobre a Odisseia, Rufo obtém a resposta: pouquíssimo... já devem ter passados mais de mil e cem anos que a escrevi...

"Ser imortal é de mau gosto; à exceção do Homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte; o divino, o terrível, o incompreensível, é saber-se imortal (...) "postulado um prazo infinito, com infinitas circunstâncias e alterações, o impossível é nem sequer compor, pelo menos uma vez, a Odisseia".

Os outros contos são todos mais pequenos e menos elaborados, embora haja alguns muito interessantes (por exemplo, "Deutsches Requiem", "A busca de Averróis", "O Zahir", "A escrita do Deus") e diversas outras pérolas borgianas, nomadamente o Aleph (que dá título a um conto e à coletâna) que é "um dos pontos do espaço que contem todos os pontos", "o lugar do globo onde estão, sem se confundirem, todos os lugares, vistos de todos os ângulos" e "multum in parvo"!



View all my reviews

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Contos de Dorothy Parker Contos de Dorothy Parker by Dorothy Parker
My rating: 4 of 5 stars

Ouvi falar pela primeira vez da Dorothy Parker num podcast do The New Yorker (a "bíblia" anglo-saxónica do conto) e fiquei logo muito interessado. Pesquisei um pouco e descobri que a Dorothy Parker era considerada uma das grandes contistas do século XX. Quando me apareceu esta coletânea em português, não resisti e comprei logo... e não me arrependi nada (apesar da tradução não ser das melhores). Trata-se de um conjunto de excelentes contos, muitíssimo bem escritos, muito serenos e perspicazes, com um sentido de humor e de crítica social sempre presente, mas muito subtil. São pequenas histórias, quase sempre de mulheres, sobre pequenas coisas aparentemente irrelevantes, apontamentos do dia a dia, um telefonema, uma visita social, sem finais inesperados, moralistas ou empolgantes, mas que nos deixam a pensar ou a sentir um doce prazer de viver.

View all my reviews
O Golpe de MisericórdiaO Golpe de Misericórdia by Marguerite Yourcenar
My rating: 5 of 5 stars

Comprei este livro com expetativas elevadas. Tinha ainda fresco na memória "De olhos abertos: conversas com Matthieu Galey" e "Memórias de Adriano" está no meu top5! No entanto, até à página 70 andei razoavelmente aborrecido e não estava a ver a coisa bem encaminhada (curiosamente, o mesmo me aconteceu com as Memórias, que só li à segunda tentativa). Foi então que uma cena de grande dramatismo, escrita magistralmente, me bateu forte! Eric (o narrador) recorda uma noite gelada de inverno, de bombardeamento aéreo, em que um quadrado de luz se recorta na varanda de Sophie. Eric sobe para fechar a janela e falam com uma intensidade emocional e uma proximidade a que nunca tinham chegado antes. Uma bomba cai junto da casa e, depois de escaparem à morte, ela atira-se para os braços dele e beijam-se. Eric reflete, mais tarde, sobre o que aconteceu: "Agora que ela está morta, e que deixei de acreditar em milagres, estou contente por ter beijado ao menos uma vez aquela boca e aqueles cabelos ásperos. Daquela mulher, semelhante a um grande país conquistado em que nunca entrei, recordo, em todo o caso, o exato grau de tepidez da sua saliva naquele dia e o odor da sua pele cheia de vida. E se alguma vez tivesse podido amar Sophie em toda a simplicidade dos sentidos e do coração, teria sido naquele minuto em que ambos possuíamos uma inocência de ressuscitados". No entanto, "Não sei em que momento a delícia se transformou em horror (...) Arranquei-me a Sophie com uma selvajaria que deverá ter parecido cruel aquele corpo que a felicidade tornava indefeso. Ela reabriu as pálpebras e viu estampada no meu rosto qualquer coisa sem dúvida mais insuportável que o ódio ou que o terror, pois recuou, tapou o rosto com o cotovelo erguido, como uma criança esbofeteada, e foi essa a última vez que os meus olhos a viram chorar". E daqui em diante foi tudo "horrivelmente" bom... e mais não conto!

A não ser que a homossexualidade de Eric, nunca mencionada pela autora ou comentada por ele mesmo como narrador, parece evidente: não só por não ter aceite o amor, nem o corpo de Sophie, que ela lhe ofereceu abertamente primeiro e depois indiretamente, pelo ciúme; não só porque Eric desdenhava as prostitutas e a experiência sexual que teve com uma foi claramente insatisfatória; mas sobretudo pelo indestrutível amor que sentia pelo Conrad, amor que aparentava ser muito mais que fraterno, embora talvez nem Eric se apercebesse disso.

Excelente!

View all my reviews
Murmúrios com Vinho de MissaMurmúrios com Vinho de Missa by Álamo Oliveira
My rating: 3 of 5 stars

Não sei bem que dizer sobre este livro. Tenho a sensação que são dois livros dentro de um, entrelaçados um no outro, quase escritos por dois autores, ou pelo mesmo autor, mas em momentos diferentes. O começo de uma das histórias é fulgurante, com as reflexões da professora Lucília sobre a sua vida e a dos seus amigos, sobretudo o Jonathan, com as suas ideias controversas e corajosas sobre a pediatria e sua paixão pelo empregado negro da loja da esquina. Mas a outra história, a do padre Raul, é um pouco insípida, quase um conjunto de recordações avulso interessantes, mas só isso. De Álamo de Oliveira, continuo a preferir a escrita, a estrutura e a beleza emocional de Já Não Gosto de Chocolates ou a força de Até hoje: Memórias de cão.

View all my reviews
Myra BreckinridgeMyra Breckinridge by Gore Vidal
My rating: 4 of 5 stars

Gore Vidal abominava classificações de género, gay, hétero, homo, bi,... e esta poderosa Myra (um retrato de mulher fabuloso, talvez o melhor?) está apostada em comprová-lo! A escrita é excelente e o final surpreendente... e mais não conto!

View all my reviews
Onde Andará Dulce VeigaOnde Andará Dulce Veiga by Caio Fernando Abreu
My rating: 4 of 5 stars

Um torvelinho surpreendente de personagens, situações, cores, cheiros, emoções, tudo muito visual, muito palpável, muito credível e tudo admiravelmente escrito! E o final soa a lição de moral, mas no bom sentido, a de que todos temos um paraíso perdido que está à nossa espera algures, se soubermos, tão só, relativizar as minudências da vida e arranjar tempo e coragem para encontrar a Dulce Veiga que há em nós.
Gostei mesmo muito, apesar do "cheirinho" a policial, género a que sou um nada alérgico por me fazer sentir um tanto ludibriado.

View all my reviews
Granta Portugal 1: EuGranta Portugal 1: Eu by Carlos Vaz Marques
My rating: 4 of 5 stars

Gostei bastante de Dulce Maria Cardoso, Saul Bellow, Ricardo Felner, Kapuscisnky e Pamuk. Interessante (até certo ponto) os inéditos do Pessoa. Desilusão, a Hélia Correia, cujo texto parece forçado, escrito por encomenda. Grande surpresa, o Felner, não só pela inteligência com que aborda o tema "Eu", pela escrita fluente ou pela estrutura "diarística", mas sobretudo por ter conseguido ser tão português e tão atual. De um modo geral, o #1 cumpriu: nunca tinha lido Kap nem Pamuk e descobri o Felner.

View all my reviews
A Segunda Morte de Anna KaréninaA Segunda Morte de Anna Karénina by Ana Cristina Silva
My rating: 3 of 5 stars

O livro tem duas partes bem distintas: as cartas de amor de Eduardo para Rodrigo e o reencontro de Violante com Luís Henrique. A autora escreve muito bem, isso é inquestionável, mas não me parece que o seu estilo de escrita funcione neste romance, sobretudo na primeira parte. É uma escrita "avalon", muito centrada na descrição de emoções, demasiado lenta e vaga. Senti algum desconforto ao ler as cartas de Eduardo, um homem que está nas trincheiras geladas e enlameadas da I Guerra Mundial, a ver os seus soldados a morrer todos os dias, destroçado por uma paixão de que fugiu, mas de que não desistiu. Parecem pouco credíveis; eu esperaria mais ritmo, maior concisão, mais ação, tudos coisas ditas "masculinas", eu sei, logo defeito meu, seguramente! :D
Na segunda parte, o estilo "avalon" funciona melhor, porque se trata sobretudo do discurso de Violante, das suas explicações, do seu desabafo que, simultaneamente, é um esclarecer do passado. No entanto, as duas partes pouco se relacionam entre si, parecendo quase dois contos separados; aliás, provavelmente, talvez funcionassem melhor assim, e não é o twist inesperado no final, que baralha um pouco a história, mas sem enriquecer a sua leitura, que serve de cola às duas parte e as consegue transformar num romance.

View all my reviews
O que houver de morrerO que houver de morrer by Guilherme de Melo
My rating: 3 of 5 stars

A história de José Carlos, que parte em busca de desvendar a vida do pai, morto logo nas primeiras páginas e que, sem que a família o desconfie, tem um caso com um empregadito de shopping, o Alcino. No final, é José Carlos que se descobre a si mesmo.
Gostei sobretudo porque ser muito português: o "cenário" em que o enredo decorre é o de uma família de classe média do final de anos 80, em Lisboa, com o surgimento dos primeiros centros comerciais, os filhos a estudar na universidade,os empregos em sociedades de advogados e bancos, as cunhas, a vida gay noturna, com os primeiros bares e salas de espetáculos, os shows de travesti!
Mas parece mais um conto longo, uma novela, do que um romance; pelo número reduzido de personagens, pela linearidade da narrativa, pela dimensão. Aliás, talvez beneficiasse se fosse condensado em conto, porque aceleraria a narrativa e eliminaria redundâncias, até pela previsibilidade do desfecho.
Ou talvez merecesse ser prolongado, transformado em romance, porque, precisamente o desfecho, pela sua brevidade, nos deixa a pensar sobre o que sentiria e como reagiria o José Carlos ao que aconteceu.

View all my reviews
Ainda Havia SolAinda Havia Sol by Guilherme de Melo
My rating: 3 of 5 stars

Dois livros num só, com narrativas intercaladas, uma na primeira pessoa, por Eduardo (um alter-ego do autor?) e outra na terceira, onde a história de Eduardo, um jornalista, se entrelaça com a de Liza, uma artista plástica que é sua amiga e confidente. Eduardo, um quarentão, sofre, relembrando a sua relação com um rapaz mais novo por quem se apaixonou e que protege, mas que deixou partir para longe, para o Algarve. Liza, não consegue libertar-se das teias do seu casamento com Dino, de quem se afastou depois de o ter surpreendido numa cena de sexo com a secretária. Eduardo é casto e sensato, esperando pacientemente pelo seu amado, sabendo que ele provavelmente não voltará, sobretudo se se deixar encantar por alguma “moura”. Liza, pelo contrário, é impulsiva e procura afogar a dor no álcool, no trabalho e em sucessivos encontros sexuais com todos os que a atraem, um militar num cacilheiro, um gigolo num bar de travestis ou um grupo de amigas lésbicas. Quando Dino reaparece, após uma episódio de bruxaria em Algés, a vida de Liza muda radicalmente mas ela acaba por descobrir que a água nunca passa duas vezes por debaixo da mesma ponte.

A estrutura com duas linhas narrativas acaba por ser um pouco desequilibrada: o romance é lento na primeira metade, mas é rápido no final; utiliza um estilo de escrita poético (e mesmo, alguma poesia), emocional e sensorial, na narrativa de Eduardo, e apresenta um estilo mais descritivo e realista na prosa de Liza; o enredo das duas linhas é quase independente e o desfecho é muito previsível. No entanto, a composição dos dois personagens principais (Liza e Eduardo) é muito boa, tal como a de Telmo (que, por pouco, seria genial), e certas passagens do enredo são deveras interessantes.

View all my reviews
Se Isto é um HomemSe Isto é um Homem by Primo Levi
My rating: 5 of 5 stars

Um livro perturbador! Escrito de forma tranquila, quase sem atirar culpas a ninguém, mas apontando o dedo a todos, Primo Levi consegue por-nos a refletir sobre a vida (a sobrevivência, as amizades e o amor, o sexo, a religião, ...) de forma inesperada, apanhando-nos desprevenidos, despidos de preconceitos, e, logo, mais preparados para compreender. Ia escrever que a obra "tinha como cenário", mas não, de facto, não foi um cenário... foi a realidade extrema de um campo de concentração nazi onde Levi foi internado durante a parte final da Segunda Guerra Mundial, e não se trata de ficção, mas de memórias. É surpreendente que um homem que passou por tamanha hecatombe consiga um distanciamento tão grande em relação aos sentimentos de zanga, ódio e vingança, que seriam compreensíveis, contra os seus agressores... recordo-me apenas de um exemplo na história recente, o enorme Nelson Mandela. Um dos melhores livros que li até hoje!

View all my reviews
Cá vai LisboaCá vai Lisboa by Alface
My rating: 3 of 5 stars

Alfama: uma associação gay, A Rosa Tatuada, apoiada pela Câmara num piscar de olhos à comunidade lgbt, quer entrar nas marchas populares de Lisboa. O Presidente da autarquia fica entre a espada e a parede: "uma marcha de larilas e sapatonas" representando um dos bairros mais tradicionais da capital a desfilar na Av. da Liberdade será demasiado para os alfacinhas? E as eleições que se aproximam...
Apesar do enredo ser um pouco deslaçado, é um livro muito divertido, muito rico em vocabulário e sintaxe (verbos e adjetivos novos a cada página), cheio de trocadilhos e aliterações, com uma profusão de personagens coloridos e invulgares, que o tornam muito louco mas muito interessante.

View all my reviews